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Mercado

Ainda haverá emprego no futuro?

Por Daniel Gomes
11 de mai de 2019

Automação e uso da inteligência artificial podem levar ao fechamento de 800 milhões de vagas de emprego em todo o mundo até o ano de 2030

Governo do Espírito Santo/Divulgação

Nas campanhas eleitorais e nos programas de ação de qualquer governo, o item “geração de emprego” é tratado como prioridade, quase sempre acompanhado por ajustes na área econômica e na legislação trabalhista. A criação de vagas, porém, é cada vez mais impactada pela automação e os recursos de inteligência artificial, pelos quais máquinas/tecnologias executam funções antes exercidas por humanos, ou seja, a vaga de trabalho deixa de existir.

Até 2030, segundo um relatório da consultoria McKinsey Global Institute (MGI), serão fechadas em definitivo entre 400 milhões e 800 milhões de vagas em todo o mundo.

No Brasil, conforme um estudo do Laboratório de Aprendizado de Máquina em Finanças e Organizações (Lamfo), da Universidade de Brasília (UnB), até 2026, 54% das vagas formais devem ser ocupadas por robôs e programas de computador, algo próximo a 30 milhões de empregos.

 

ÁREAS MAIS AFETADAS

Profissões altamente atreladas a trabalhos físicos, operação de máquinas ou processamento de dados serão as mais afetadas, segundo a consultoria MGI. Essa constatação também foi feita por Pollyana Notargiacomo, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutora em Educação pela USP e pós-doutora em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Uberlândia.

“Qualquer carreira que envolva questões ligadas a repetição, um exemplo são os caixas de supermercado, em breve pode não existir mais. No caso dos caixas, as pessoas irão poder passar direto com um carrinho em um identificador nos produtos. Também muitos call centers já foram automatizados”, detalhou a professora ao O SÃO PAULO.

 

EDUCAÇÃO E CAPACITAÇÃO

Nesse cenário, será indispensável que os governos, e mesmo as empresas, proporcionem capacitações aos trabalhadores para as novas demandas de mercado. “Os países que não conseguem administrar essa transição podem ver o aumento do desemprego e salários menores”, indica o relatório da MGI. “A reciclagem de meio de carreira se tornará cada vez mais importante como o mix de habilidades necessárias para uma mudança de carreira bem-sucedida”, recomenda a consultoria.

Para Pollyana, é fundamental que no Brasil haja “um projeto educacional no qual as pessoas passam a ter a ideia de aprendizagem vitalícia e não só por um período de tempo. É necessário que elas continuem desenvolvendo suas habilidades, competências, e que aprendam com conhecimentos complementares”, analisou. “Cada vez mais, o trabalho vai envolver elementos interdisciplinares”, afirmou.

 

HABILIDADES INDISPONÍVEIS

O relatório da MGI também aponta que no futuro os trabalhadores estarão mais envolvidos em gerenciar pessoas, aplicar conhecimentos e se comunicar, e menos em coleta e processamento de dados.

Na avaliação de Cristina Helena Pinto de Mello, doutora em Economia e professora na PUC-SP, cada vez mais o mercado irá valorizar profissionais com competências relacionais, cognitivas, sociais, humanas e de conhecimento digital. “A capacidade de criar, de se relacionar, de ser empático com o outro, isso as máquinas dificilmente vão substituir. Será preciso buscar formações que ofereçam essas habilidades”, recomendou.

 

QUEM TERÁ OPORTUNIDADES?

“Ocupações que exigem alto nível de especialização ou uma alta exigência de interação social e emocional serão menos suscetíveis à automatização até 2030”, indica o relatório da MGI. Também o estudo do Lamfo apontou que, quanto maior a subjetividade e a complexidade da tarefa, menor a chance de que seja automatizada. De igual modo, um levantamento feito nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicou que habilidades como pensar diante dos problemas, criatividade, curiosidade e espírito de cooperação vão abrir portas no mercado de trabalho.

“Interpretar, refletir e extrapolar o conhecimento adquirido não é algo que a tecnologia é capaz de fazer. Ela não tem a mesma capacidade criativa do cérebro humano, nem competências socioemocionais: não substitui padrões de sentimentos, de relações pessoais. Assim, profissionais ou pessoas que tenham essas competências, provavelmente, vão conseguir manter empregos em suas áreas”, avaliou Cristina Helena.

 

EFICÁCIA PRODUTIVA E PROGRESSO ECONÔMICO

Vistas a princípio como geradoras de desemprego, a automação e a inteligência artificial podem provocar o efeito reverso, pois, com a melhoria do processo produtivo, as empresas reduzem custos e aumentam lucros, o que pode ter impacto positivo na economia de um país.

“A sustentação do crescimento robusto da demanda agregada [de modo simplificado, o conjunto de gastos realizados por consumidores, produtores, governo e outros países], é fundamental para apoiar a criação de novos empregos, assim como o suporte para a formação e inovação de novos negócios. Políticas fiscais e monetárias que assegurem demanda agregada suficiente, bem como apoio ao investimento empresarial e inovação serão essenciais”, recomenda a MGI.

Nos países membros da OCDE, segundo recente editorial do jornal O Estado de S. Paulo, o uso da tecnologia tem ajudado a reduzir custos de bens e serviços e estimulado a produção e o consumo. Entre 2005 e 2016, 40% das vagas criadas foram nos setores com predominância digital.

Durante uma audiência pública sobre as implicações da adoção de recursos de inteligência artificial no setor produtivo, em outubro de 2018, na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, Virgílio Almeida, cientista e professor de Ciências da Computação, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou que, sem adotar as novas tecnologias, “a indústria ficará completamente ultrapassada”, e que, junto com essa adoção, deve-se “investir em capital humano; fortalecer a rede de proteção social no País, porque muitos irão perder o emprego; preocupar-se com a inclusão social e preparar a sociedade e os mercados para esse futuro”, afirmou. Citou, ainda, o caso de um país desenvolvido: “Na Suécia, se você pergunta a um sindicalista se ele está com medo da nova tecnologia, a resposta é: ‘Eu estou com medo da antiga tecnologia’. Por quê? ‘Porque, se há perda na competitividade, não há exportação, não há faturamento’”.

Para Cristina Helena, a substituição de homens por máquinas em algumas funções pode ser benéfica, desde que haja formas de distribuir o que é produzido. “Hoje, acessamos a produção com o salário obtido no trabalho. Se esse canal for destruído, será preciso algum mecanismo de distribuição de renda por parte do Estado, para que se garanta um mercado consumidor. Do contrário, substituir mão de obra por tecnologia fará com que não haja para quem vender o que for produzido”, analisou.

(Com informações de El Pais, UOL, O Estado de S.Paulo, consultoria MGI e Câmara Notícias)
 

PROFISSÕES EM RISCO

Em geral, todas que demandem processamento de dados ou a realização de atividades repetitivas. Alguns dos exemplos são: telefonistas, operadores de caixa e funcionários das redes de fast-food. Também há risco para as vagas no comércio varejista em loja, por conta do crescimento do comércio eletrônico.

 

PROFISSÕES COM POTENCIAL DE EXPANSÃO

A lista de profissionais inclui os que gerenciam pessoas, os que realizam tarefas relacionadas ao lar (jardineiros, cozinheiros e cuidadores de idosos e crianças), educadores infantis, profissionais da área da saúde (especialmente pelo maior cuidado com a qua- lidade de vida e envelheci- mento), desenvolvedores e aplicadores de novas tec- nologias, os que lidam com energias renováveis e com recicláveis, artistas (deve haver maior demanda por lazer e recreação) e profis- sionais ligados à construção civil (como engenheiros, arquitetos e eletricistas).

* Projeções com base nos dados da consultoria McKinsey Global Institute

 

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