SÃO PAULO

Christopher West

‘A Teologia do Corpo nos dá uma nova linguagem para explicar as verdades’

Por José Ferreira Filho
11 de agosto de 2019

West dedica-se a propagar os ensinamentos a respeito da importância do corpo humano em seu sentido teológico

Considerado o maior estudioso da atualidade a respeito da “Teologia do Corpo”, de São João Paulo II, o teólogo norte-americano Christopher West, 49, esteve recentemente em São Paulo para conduzir o seminário “Vivendo a alegria do amor” 


Fundador do The Theology of the Body Institute (www.tobinstitute.org) e do The Cor Project (www.corproject.com), este último em parceria com Mark Mangione, West dedica-se a propagar os ensinamentos a respeito da importância do corpo humano em seu sentido teológico e, consequentemente, a necessidade de se redescobrir a beleza do plano original de Deus acerca da sexualidade humana, do Matrimônio e da família. Ao O SÃO PAULO, ele concedeu uma entrevista exclusiva, cujos principais trechos estão a seguir e a íntegra pode ser lida em www.osaopaulo.org.br.

O SÃO PAULO – Como você descobriu a Teologia do Corpo e como foi a sua experiência pessoal com ela? 


Christopher West – Descobri a Teologia do Corpo em 1993, quando tinha 24 anos. Cresci na Igreja durante as décadas de 1970 e 1980, época em que vivi o que chamo de “abordagem da dieta da fome” para o Cristianismo, que basicamente é “seus desejos são maus, você precisa reprimi-los e seguir tais regras para ser um cristão exemplar”. Por esse motivo é que me tornei, em minha adolescência, um rápido convertido ao que chamo de “abordagem fast-food”, propalada pela cultura secularizada, que consiste na promessa de gratificação imediata dos seus desejos. Para fazer uma analogia, se você consome muita fast-food, acaba ficando muito doente e é assim que eu me encontrava nos anos em que estudava na universidade: estava muito doente interiormente em decorrência da fast-food que estava comendo. Então, decidi empreender uma viagem, perguntando: “Deus, se você existe, então me mostre porque nos criou homem e mulher, o que tudo isso a respeito do ser humano quer dizer’. Essa viagem me conduziu até a Teologia do Corpo. Quando a descobri, percebi que o Cristianismo não é uma “dieta da fome” e sim um convite para um banquete, para uma festa de casamento. Na verdade, Deus quer se “casar” conosco e seus planos incluem nossos corpos. Isso me deu esperança, me deu liberdade e eu percebi que queria passar o resto da minha vida a estudar o assunto e a compartilhá-lo com os demais, porque sabia que pouquíssimas pessoas o conheciam e eu tinha a necessidade de divulgá-lo. 

Como casado e pai de cinco filhos, em que a Teologia do Corpo lhe ajudou e pode ajudar a outras pessoas? 
Não sei como se diz em Português, porém, nos Estados Unidos, quando você tem uma aula de Ciências, você estuda um determinado assunto e depois tem uma aula prática no laboratório. Estudar a Teologia do Corpo é uma coisa, vivenciá-la é outra. Meu casamento era a aula do laboratório, uma espécie de estágio, ou seja, uma maneira de viver na prática minha vocação como casado. Isso se tornou uma longa viagem, pois já estou casado há quase 24 anos e aprendi que se trata de uma viagem que vai da cabeça ao coração e, por isso, é demorada. E o ingrediente número um para qualquer relacionamento de sucesso é a misericórdia. Nós nunca a vivemos de maneira perfeita, porém há sempre uma real esperança, por meio da misericórdia divina, de embarcar numa viagem na qual descobrimos quanto ainda é necessário amar e o que o amor significa de fato. E, por meio disso, cada uma das novas alegrias. Há sempre uma morte na ressurreição: a imagem do amor que a Igreja nos mostra é o crucifixo. E quando Jesus nos deixa o novo mandamento do amor, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, eu diria aos maridos: “amai vossas esposas como Cristo ama a sua Igreja”. Cristo nos ensinou qual a maneira de amar e sua medida, e isso não é fácil: nós temos que morrer a fim de viver, para sentir a verdadeira alegria. Jesus diz “amai-vos uns aos outros como eu vos amei [...]”. “Disse-vos isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa”. Essa alegria é a da ressurreição e, por isso, nós também devemos estar dispostos ao sofrimento, ao sacrifício a fim de aprender a amar. É daí que vem a alegria! Alegria e sofrimento andam juntos. Podemos dizer que agonia e êxtase andam juntos

Até que ponto a Teologia do Corpo é algo novo em comparação com o que a Igreja já havia ensinado sobre o assunto antes do seu surgimento? 
A Teologia do Corpo nos dá uma nova linguagem para explicar as verdades. O Evangelho é o mesmo ontem, hoje e sempre, e há consenso de que não há nada de novo aqui. É o que Jesus ensinou aos discípulos, é o que São João Paulo II disse: a Teologia do Corpo não é nada mais que uma reflexão a respeito das Escrituras. É algo extraído diretamente da Bíblia o que São João Paulo II nos dá. O que ele oferece é uma nova linguagem, uma linguagem para expressar em verdades. O que há de novo são ideias a respeito do desenvolvimento orgânico do pensar, como, por exemplo: Santo Agostinho disse que somos imagem de Deus por meio de nossa alma original, que comporta a memória, inteligência e vontade. São João Paulo II dá um passo além e diz que somos imagem de Deus por sermos chamados à comunhão com Ele, porque Deus não é somente racional, mas também um eterno intercâmbio de comunhão de amor, e nessa chamada à comunhão incluem-se nossos corpos, como homem e mulher. Nós somos imagem de Deus como indivíduos, mas somos ainda mais imagem de Deus por sermos chamados à comunhão. Este é o desenvolvimento orgânico da teologia católica, algo que foi formalmente estabelecido por São João Paulo II e agora tem sido desenvolvido de maneira mais aprofundada. 

Como os ensinamentos da Teologia do Corpo estão presentes nos pontificados de Bento XVI e Francisco? 
Bento XVI, quando iniciou seu pontificado, disse que seu trabalho não seria dar novas ideias ou ensinamentos e sim implementar, levar além, os ensinamentos de seu predecessor. Isso pode ser visto em sua primeira encíclica, Deus caritas est, que pode ser considerada, de várias maneiras, como o coroamento do trabalho de São João Paulo II a respeito da Teologia do Corpo. Nela, Bento XVI usou sua linguagem própria, porém de maneira a desenvolver e aprofundar os pensamentos de São João Paulo II a respeito da Teologia do Corpo, sobretudo quando explana a relação entre Eros e Ágape. O Papa Francisco também tem uma linguagem própria, de forma a aprofundar e continuar os ensinamentos de São João Paulo II em relação à Teologia do Corpo. Creio que não haja documento mais relacionado com a Teologia do Corpo que a Amoris Laetitia.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Christus Vivit, afirma que há grande dificuldade de se viver os valores evangélicos e uma boa relação com o próprio corpo, em virtude dos constantes apelos a uma sexualidade desordenada. Como demonstrar aos jovens de hoje que a vivência da castidade é necessária?
Eu diria que a verdade do ensinamento da Igreja no que diz respeito à moral sexual é confirmada pelos ferimentos e dores de uma cultura que a tem rejeitado. O que aconteceria se você escovasse seus dentes com lubrificante? Seguramente, haveria evidências de que você não deveria ter feito isso. A dor em que se encontra nossa atual cultura, a confusão sexual e o caos em relação a gênero em que estamos mergulhados são provas da bondade, da retidão e da verdade da visão da Igreja. Precisamos entender, de fato, qual é a real visão da Igreja. Não é a abordagem da fome e sim a abordagem do banquete.

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