SÃO PAULO

Edifício Wilton Paes de Almeida

A solidariedade da Igreja às vítimas de tragédia no Largo do Paissandu

Por Fernando Geronazzo
04 de mai de 2018

Dom Carlos Lema Garcia e Padre Julio Lancellotti conversam com vítimas de incêndio e desabamento de prédio no centro de São Paulo, no dia 1º

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

A Arquidiocese de São Paulo manifestou solidariedade e proximidade às vítimas do incêndio e desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, próximo ao Largo do Paissandu, no centro da Capital Paulista, na madrugada da terçafeira, dia 1º. A pedido do Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo Metropolitano, Dom Carlos Lema Garcia, Bispo Auxiliar da Arquidiocese, e o Padre Julio Renato Lancellotti, Vigário Episcopal para a Pastoral  do Povo da Rua, estiveram no local do acidente acompanhando o atendimento às vítimas e auxiliando no diálogo entre desabrigados e agentes públicos em busca de soluções emergenciais para as cerca de 140 famílias que ocupavam o prédio.

Segundo o cadastro social da Prefeitura de São Paulo, 49 pessoas não haviam sido localizadas até a tarde da quarta-feira, 2. Mas isso não significa que todas estejam sob os escombros, já que nem todos poderiam estar no local no momento do acidente. O Corpo de Bombeiros confirmou o desaparecimento de um homem que estava sendo resgatado do alto do prédio, mas caiu no momento do desmoronamento. Também há informações de parentes sobre uma mulher e duas crianças que estariam no edifício poucas horas antes do incêndio e ainda não foram localizadas.

A principal hipótese levantada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo para o incêndio é a de acidente doméstico, como a explosão de um botijão de gás ou de uma panela de pressão. Também há relatos de que houve uma briga de casal no quinto andar do edifício, onde começou o incêndio. Segundo peritos do Instituto de Criminalística de São Paulo, um laudo será feito a partir da análise dos objetos e destroços encontrados para se chegar às prováveis causas. 

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DIÁLOGO E ACOLHIDA

Dentre as alternativas apresentadas para o atendimento emergencial das famílias que se aglomeraram no Largo do Paissandu, foi oferecida a quadra do Colégio São Bento, também na região central, após um diálogo entre os monges beneditinos e a Prefeitura, intermediado pela Arquidiocese. Dom Odilo chegou a conversar, por telefone, com o Prefeito Bruno Covas, que garantiu oferecer toda a infraestrutura para essa solução provisória até que fosse encontrada uma medida definitiva. 

Dom Carlos explicou ao O SÃO PAULO que a presença da Igreja facilitou a conversa entre as vítimas e a Prefeitura. “Pelo trabalho que a Igreja tem junto a essa população existe uma relação de confiança com os representantes das pastorais”, afirmou. 

O Secretário de Governo da Prefeitura, Júlio Semeghini, explicou à reportagem que a proposta de um local provisório para abrigar as vítimas tem o objetivo de garantir o mínimo de dignidade para essas famílias e facilitar as negociações por uma solução permanente. Muitos dos desabrigados temiam ser removidos para albergues da Prefeitura para pessoas em situação de rua e serem separados de seus entes. Também foram oferecidos pela Prefeitura outros dois locais alternativos para a acolhida temporária na região central.

A maioria dos desabrigados optou por permanecer acampado no Largo do Paissandu, alegando medo de perder a força de reivindicação de direitos. Entretanto, aceitaram ter como ponto de apoio um espaço do Movimento da População de Rua, no Viaduto Pedroso, onde há banheiros, camas e alimentação. “Tudo isso, por enquanto, é emergencial. Essas pessoas não vão poder ficar nessa situação de maneira permanente”, alertou o Padre Julio Lancellotti. 

 

O EDIFÍCIO

Inaugurado em 1968, o edifício Wilton Paes de Almeida foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental do Estado de São Paulo (Conpresp) em 1992. 

Com 24 pavimentos, foi um dos primeiros prédios da cidade a exibir uma fachada formada inteiramente por esquadrias preenchidas de vidro. Em 1980, o prédio abrigou a sede da Policia Federal, que em 2003 deixou o local e mudou-se para a sede atual na Lapa, na zona Oeste. Abandonado, o edifício sofreu várias ocupações. 

A Secretaria Municipal de Habitação atuava na ocupação do edifício por meio do Grupo de Mediação de Conflitos, uma vez que no local estava previsto haver a reintegração de posse, movida pela Secretaria de Patrimônio da União. Uma vez desocupado, o imóvel seria cedido à Prefeitura. Entre fevereiro e abril, a Secretaria de Habitação teria feito seis reuniões com as lideranças da ocupação para esclarecer a necessidade de desocupação do prédio, por conta do risco e da ação judicial. A ocupação era organizada pelo Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), que faz parte do Movimento Luta por Moradia Digna. No dia 10 de março, a secretaria cadastrou cerca de 150 famílias ocupantes do prédio. Desse total, 25% eram estrangeiras. Esse cadastro foi realizado para identificar a quantidade de famílias, o grau de vulnerabilidade social e a necessidade de encaminhamento das famílias à rede socioassistencial.

 

RISCOS

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) determinou, na terça-feira, dia 1º, que sejam investigadas as causas do incêndio, além da veracidade dos relatórios técnicos encaminhados pelos órgãos públicos responsáveis pela manutenção e fiscalização. Em 24 de agosto de 2015, a Promotoria de Habitação de Urbanismo já havia instaurado um inquérito civil para apurar a possível existência de risco no imóvel. Em nota, o MPSP informa que reabriu o caso em virtude dos “gravíssimos fatos ocorridos”. 

Em 16 de março, a Promotoria  arquivou o inquérito civil após receber um laudo de vistoria da Defesa Civil, quando “não foram constatadas anomalias que implicassem riscos naquela edificação, embora a instalação elétrica estivesse em desacordo com as normas aplicáveis, assim como o sistema de combate a incêndio”.

 

DESTRUIÇÃO DE IGREJA HISTÓRICA

A Arquidiocese também prestou solidariedade à Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, que teve 80% de seu histórico templo destruído pelo desabamento do edifício localizado ao lado. A pedido do Cardeal Scherer, foram iniciados contatos com lideranças luteranas para colocar algum templo católico à disposição da celebração dos cultos, caso seja necessário, enquanto a igreja não for reconstruída. 

Inaugurada em 25 de dezembro de 1908, o templo é considerado a primeira paróquia evangélica da Capital Paulista. Entre 2012 e 2013, passou por uma reforma interna. 

 

DOAÇÕES

Além do acompanhamento das vítimas, a Arquidiocese está auxiliando na arrecadação de doações, com o apoio da Caritas Arquidiocesana . Os itens de maior necessidade são: alimentos, água roupas (adulto/infantil), fraldas, sapatos, itens de higiene, colchão/colchonetes, materiais escolares e cobertores.

As doações devem ser encaminhadas para: Igreja Santa Ifigênia (Rua Santa Ifigênia, 30); Santuário São Francisco (Largo São Francisco, s/nº); Catedral da Sé (Praça da Sé, s/nº); Centro de Acolhida (Viaduto Pedroso, 111); Cruz Vermelha (Avenida Rubem Berta, 860).

(Com informações de Estadão, G1, Exame e Portal Luteranos)
(Colaborou: Flavio Rogério Lopes)
 
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