SÃO PAULO

COM A PALAVRA

‘A poliomielite não é uma doença pontual’

Por JENNIFFER SILVA
06 de dezembro de 2019

Uma doença viral, de transmissão entre pessoas, fundamentalmente orofecal, ou seja, pelo contato com águas contaminadas ou fezes

Doença contagiosa aguda [agudas são as doenças que têm um curso acelerado, terminando com convalescença ou morte em menos de três meses] que pode ser contraída por crianças e adultos, a poliomielite é responsável por provocar, nos casos graves, paralisia dos membros. De acordo com o Ministério da Saúde, o último caso de infecção por este poliovírus selvagem no Brasil ocorreu em 1989, na cidade de Sousa (PB). 
Em todo o território nacional, existe uma estratégia de prevenção pautada em campanhas de vacinação em massa. Essa é a única forma de evitar a contaminação. Entretanto, seguundo a pasta, atualmente, cem municípios brasileiros apresentam coberturas vacinais abaixo de 50%, muito inferior aos 95% recomendáveis. 
O médico infectologista do Hospital Emílio Ribas, Jamal Suleiman, falou ao O SÃO PAULO sobre como os baixos índices de vacinação preocupam e devem servir de alerta para um possível retorno da doença no País. 

O SÃO PAULO – Em termos gerais, como pode ser definida a poliomielite?
Jamal Suleiman – É uma doença viral, de transmissão entre pessoas, fundamentalmente orofecal, ou seja, pelo contato com águas contaminadas ou fezes. Uma situação de mau saneamento básico aumenta, substancialmente, o risco de transmissão entre pessoas. Essa doença pode comprometer os movimentos por meio de uma paralisia flácida, quando o sujeito perde a capacidade de se movimentar, e provocar a impossibilidade de respiração.

QUAIS SÃO AS CAUSAS E SINTOMAS MAIS COMUNS
Pode ser uma perda súbita ou gradual dos movimentos musculares em qualquer localização, que compromete o sistema nervoso. O sujeito perde a movimentação, dependendo do nível de comprometimento. Pode ocorrer na parte inferior do corpo – da cintura para baixo –, ou superior – da cintura escapular [dos ombros para baixo].
É uma doença relacionada ao saneamento básico precário. A reemergência, em um primeiro momento, diz respeito às crises humanitárias ao redor do mundo [guerra civil, revoluções, desastres naturais], em que a população necessita se descolar de um lugar para outro. 
Algumas pessoas têm o vírus e podem não sofrer nenhum tipo de problema, mas, a partir do momento em que ele chega à comunidade e ocorre o contato com os indivíduos suscetíveis [que são muitos], a infecciosidade se torna relativamente grande.

AS CAMPANHAS NACIONAIS DE VACINAÇÃO MUDARAM O PANORAMA DE ENFRENTAMENTO DA POLIOMIELITE NO BRASIL?
O Brasil sempre teve campanhas extensas e maciças de vacinação. A poliomielite está no calendário vacinal, mas, ainda assim, realizam-se campanhas extras para, exatamente, quebrar completamente a cadeia de transmissão.
A doença dispõe de uma vacina altamente eficaz e simples há décadas – com apenas uma dose o cidadão está protegido. O problema é que, atualmente, vivemos uma situação muito grave: a redução intensa da cobertura vacinal desta e de outras doenças, o que aumenta o risco de reemergência.
O que acontece agora é uma negação das vantagens dessas vacinas. É um pensamento completamente equivocado, pois não se observa como a vida melhorou quando as pessoas começaram a se vacinar. 
Um problema muito sério é a incapacidade de uma leitura crítica de textos. Tem um filósofo que diz que a internet deu voz aos idiotas e, com isso, o sujeito publica algo sem nenhum embasamento técnico, científico ou humanitário, que encontra eco na sociedade e rompe todo um trabalho eficaz de proteção à população. As políticas públicas acabam ficando comprometidas em virtude da disseminação de notícias falsas. Isso é muito triste e não ocorre apenas com a vacina da poliomielite, pois o que aconteceu com o sarampo é o exemplo mais evidente em São Paulo. 
Além disso, algumas coisas mudaram. Durante muito tempo, para efetuar matrícula na rede pública de educação, era necessário levar a carteira de vacinação de seu filho atualizada. Com isso, havia um controle das escolas, e a família tinha cuidado nesse aspecto. Essa determinação caiu. Esse fato e as fake news colaboraram substancialmente para a baixa na imunização. 

MESMO APÓS TANTOS ANOS SEM REGISTRO DA DOENÇA, O BRASIL DEVE SE PREOCUPAR COM OS BAIXOS ÍNDICES DE VACINAÇÃO? 
O Brasil não é um destino procurado para populações que vivem situações de catástrofes. Entretanto, é bom lembrar que de 90% a 95% das infecções são assintomáticas, o que significa que não haverá nenhuma manifestação clínica, mesmo quando contraído o vírus. Ao considerar lugares onde a cobertura vacinal é ainda mais baixa, o risco é muito maior. 
Eu não tenho como prever, em um intervalo de tempo, qual será esse risco; o que se sabe é que as distâncias estão mais curtas. Mesmo que o Brasil não tenha muito contato com países da África, onde a doença não foi erradicada, o risco existe. 
A questão principal é que um único indivíduo doente deve ser considerado grave, pois a forma paralítica da poliomielite é extremamente limitante. Na minha geração, muitas pessoas contraíram o vírus, sobretudo crianças que passaram a vida inteira sofrendo com um déficit provocado por uma doença absolutamente prevenível. 

ALÉM DA PARALISIA, QUAIS OUTRAS COMPLICAÇÕES A PESSOA CONTAMINADA PODE SOFRER?
A doença pode ser abortiva, ou seja, uma mulher grávida, quando contaminada, corre o risco de sofrer um aborto espontâneo. Essa 
realidade corresponde a 5% dos casos. Outra fórmula clínica é a meningite, que soma 1% dos diagnósticos. Existe, ainda, a síndrome pós-pólio, que piora, substancialmente, a funcionalidade de um indivíduo, pois ele terá uma grande fraqueza, fadiga, artrite degenerativa, dores nas articulações etc. Um total de 2% dos casos de contaminação do vírus resulta na forma paralítica, com sequelas graves.
Os três sorotipos do vírus da poliomielite são capazes de promover a paralisia. Existe uma frequência maior de um sorotipo para outro, mas isso, do ponto de vista de impacto na população, não é considerado em relação à infecciosidade, pois os três se alojam e se multiplicam no organismo.
Existem os indivíduos que não apresentarão nenhuma manifestação ou, no máximo, uma diarreia nos primeiros dias de contaminação, pois eles contêm uma baixa patogenicidade, que é a capacidade de promover a doença logo na infecção. Deste grupo, a cada 100 infectados, apenas dois terão paralisia. 
Não é uma doença pontual, da qual o sujeito irá se recuperar. A poliomielite, quando provoca a paralisia, traz uma complicação que será para toda a vida. E, nesse caso, a taxa de mortalidade é de 60%.

CRIANÇAS E ADULTOS TÊM IGUAIS RISCOS DE CONTRAIR POLIOMIELITE?
As crianças sofrem um risco maior e, por isso, a vacinação ocorre nessa faixa etária. Quando o adulto está em contato com o vírus, pode desenvolver anticorpos, de acordo com determinantes genéticos, mas a criança exposta ao vírus não desenvolve imunidade. Quando infectada, pode vir a óbito ou sofrer com sequelas graves. Os adultos têm uma capacidade melhor de responder ao vírus do que as crianças.

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