INTERNACIONAL

Pelo mundo

‘A miséria é nossa vizinha’

Por ACN
02 de mai de 2019

Entrevista com a Irmã Maria Lúcia, que atende pessoas com deficiência no Lar Fonte da Fraternidade, em Salvador (BA)

Em 1964, Dom Eugênio Sales, na época Administrador Apostólico de Natal (RN), obteve autorização do Papa Paulo VI para que freiras, pela primeira vez na história, assumissem paróquias com a presença de um sacerdote apenas aos domingos. Um ano depois, Dom Eugênio e a ACN iniciaram, em Salvador (BA), o projeto GRIMPO (Grupo de Religiosas Inseridas no Meio Popular), que existe até hoje e conta com 139 religiosas de diferentes congregações, que vivem nos bairros mais carentes da Capital Baiana. Com a ajuda da ACN, essas religiosas são presenças fundamentais na evangelização e no auxílio médico e material. Assim é a missão da Irmã Maria Lúcia Torres, do Instituto Nossa Senhora da Oferenda, que está em Salvador há mais de 40 anos.

 

IRMÃ MARIA LÚCIA, CONTE UM POUCO SOBRE A SUA ORDEM E SOBRE O TRABALHO REALIZADO EM SALVADOR

Eu sou do Instituto Nossa Senhora da Oferenda, que tem como carisma a evangelização das pessoas doentes e com deficiência. A Ordem foi fundada na França e possui duas casas aqui na Bahia: em Salvador e na Diocese de Caetité. Eu nasci em Sergipe, mas há 40 anos moro em Salvador. Nesse período todo, acompanho o GRIMPO. Antes, éramos chamadas de Irmãs de paróquia, mas agora estou no Lar Fonte da Fraternidade, uma residência de adolescentes, jovens e adultos com deficiência que se tornou a primeira residência inclusiva de Salvador, e única no momento. É uma residência inclusiva porque o trabalho está em acolher, dar residência e inclusão aos deficientes que foram abandonados. Eles cresceram aqui, tornaram-se jovens e adultos, e não têm pra onde ir. O Lar recebe também as pessoas com deficiência da comunidade, que passam pelos atendimentos de fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e pedagogia. Acabamos de iniciar uma sala da aula inclusiva domiciliar. Isso é muito importante por causa da violência dos nossos bairros. Não há condições de levá-los à noite para a escola e, desde 2015, buscávamos essa autorização da Secretaria Municipal de Educação, junto com o Ministério Público, para dar a educação em aulas realizadas aqui no Lar.

 

COMO O LAR SE MANTÉM?

O Lar Fonte da Fraternidade se mantém por meio de doações, da ajuda que recebe da ACN e, também, pelo trabalho voluntário de profissionais da área médica e terapeutas, assistentes sociais e do atendimento das Irmãs. As pessoas da comunidade também ajudam muito naquilo que podem. Inclusive, todo mês, há uma pessoa que vem muito cedo, anonimamente. Ela abre o portão e deixa a despesa de alimentos sobre uma cadeira que temos no quintal. Não sabemos quem é, mas ela faz isso mensalmente.

 

COMO A IGREJA FAZ PARTE DO DIA A DIA DOS RESIDENTES?

As Irmãs estão na comunidade e a comunidade está dentro do Lar. Aqui, realizamos Catequese, grupo de jovens, Crisma, sacramentos na comunidade e participamos das celebrações nas igrejas que são próximas do Lar. Mas, também, independentemente da Igreja Católica, somos vizinhos da Igreja Adventista, e tivemos um encontro dos idosos aqui, com a casa aberta a toda a comunidade. Então, vários grupos vêm participar, vêm fazer uma tarde de integração. O que importa para nós é que se faça o bem, e se faça por amor e para alegrar a vida dos residentes. Pra gente tudo bem, é o que Deus quer! Somos muito ecumênicos e nosso Papa Francisco pede muito isso.

 

O PAPA FRANCISCO É UMA FONTE DE INSPIRAÇÃO?

O Papa Francisco sente o cheiro das suas ovelhas. Ele é realmente um pastor e um pai para nós, da Igreja. Ele possui uma abertura, uma sensibilidade e uma humanidade que inspira profundamente nossa missão e o trabalho como evangelizadoras. O Papa Francisco está mudando a história da Igreja, e a Igreja precisava disso, porque não podemos ficar somente na sacristia. Ele diz sempre que a Igreja deve sair às ruas, olhar os bairros, visitar as famílias e ver a situação que o povo vive. É muito confortável ficar no sofá, em casa, ou na sacristia e não ter o conhecimento, a sensibilidade e a experiência da vida que o povo vive. A miséria é nossa vizinha. Por isso, é importante a doação, e enfatizo para aqueles que doam, que o gesto deles atinge na prática toda uma comunidade e consegue acesso nas áreas mais carentes, por meio do trabalho missionário das Irmãs.

 

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