NACIONAL

AVC EM CRIANÇAS

A luta pelo ser e pelo crescer ainda na infância

Por Jenniffer Silva
01 de novembro de 2018

No dia Mundial de Combate ao AVC, torna-se necessário entender que um, em cada 3 mil nascidos vivos sofrem com acidente vascular cerebral

Arquivo pessoal

Já nas primeiras horas do dia, quando é terça-feira e sexta-feira, Sandra Avalos e a filha Ana Beatriz se levantam e saem da zona Leste de São Paulo, em Ermelino Matarazzo, rumo ao bairro do Tucuruvi, na parte norte da cidade. Os aproximados 60 minutos de distância, tornam-se segundos, quando o motivo que as leva até lá é lembrado. Os raios de sol que crescem no horizonte significam a conquista que o dia poderá lhes oferecer.

Às 4h de 1o de julho de 2005 nascia Ana Beatriz, hoje com 13 anos, e que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no momento do parto. Sua mãe contou ao O SÃO PAULO que na hora do nascimento da filha, a equipe médica que a atendeu não permitiu que ela segurasse nem visse a filha. Os médicos alegavam que Ana estava cansada.

No dia seguinte, Sandra percebeu que sua filha não havia sido levada pelas enfermeiras para mamar. A resposta dada pela equipe médica permaneceu a mesma. Na realidade, a recém-nascida estava apresentando hisparmos, que são crises compulsivas.

Levada para Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, foram feitos exames, dentre eles a tomografia que diagnosticou um AVC Hemorrágico do lado esquerdo do cérebro: “Eu só agradeci a Deus, mas em momento algum imaginava a luta que seria depois do nascimento dela”, relembrou Sandra.

Durante a gestação e mesmo os exames pré-natal não identificaram uma cardiopatia congênita, responsável pelo AVC sofrido por Ana. As quatro veias do coração invertidas só foram descobertas um mês após ao seu nascimento e, por já estarem em estado avançado, uma cirurgia de correção foi realizada, às pressas, quando a menina tinha apenas 40 dias de vida: “Dentro das cardiopatias que existem, a dela representa apenas 1%, é raríssima”, destacou Sandra.

Duas vezes por semana, Ana Beatriz realiza fisioterapia em uma clínica no bairro do Tucuruvi. Lá é atendida por profissionais que cuidam das sequelas deixadas pelo AVC. Ana possui dificuldade cognitiva e de locomoção. A cada sessão, é conquistado um pouco mais de autonomia e, quem sabe, uma nova palavra é aprendida e pronunciada.

‘MEU MILAGRE’

“Eu cheguei a ouvir de fonoaudiólogos que ela poderia não falar. Aquilo para mim foi angustiante”, contou emocionada a mãe de Ana Beatriz, que comemora a cada nova palavra verbalizada pela filha.

Um dos momentos mais marcantes para Sandra foi quando Ana deu os primeiros passos, aos 2 anos e meio de idade. Ela lembrou ainda que amarava um pano na cintura da filha para estimulá-la a caminhar: “Ainda tem um caminho a percorrer, mas eu confio no tempo dela e no tempo de Deus”, continuou.

Após a operação que corrigiu a má formação nas veias da menina, foram necessárias 72 horas de espera para ter a certeza de que seu organismo não iria rejeitar o procedimento cirúrgico. “Foi um momento desesperador, por isso, eu falo que ela é meu milagre”.

TORNAR-SE FORTE

Um dos aspectos destacados por Sandra são os aprendizados que a maternidade lhe trouxe. No início, Sandra diz que saia desesperada para o hospital a cada febre que Ana apresentava.

Saber lidar com o preconceito foi, para ela, outro ponto necessário a superar. Hoje, pode reconhecer seu crescimento e considera que o tempo foi capaz de transformá-la em uma pessoa mais fortalecida.

ANTES MESMO DE NASCER

A forma como Arthur Bruno virava os olhos, abria e fechava a mão direita, repentinamente, despertaram em Paula Meneghetti a desconfiança de que, talvez, algo pudesse estar errado com seu primeiro filho. Dois dias após dar à luz, os dois receberam alta e seguiram para casa, em Ribeirão Pires (SP).

Arthur seguiu apresentando os sinais. Paula levou o menino a um hospital. A médica de plantão diagnosticou que Arthur estava sofrendo convulsões e logo foi dado a ele o primeiro, das muitas doses, de anticonvulsivante.

Foram dez dias de internação e realização de ressonância magnética e tomografia, que acusaram um AVC Isquêmico do lado esquerdo do cérebro, Arthur precisaria fazer usos dos anticonvulsivante a cada 12 horas: “A partir daí, começou nossa luta”, falou Paula.

Quando tinha de 15 a 18 dias de nascido, Arthur iniciou tratamento na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Por ser muito pequeno, não realizava fisioterapia. Eram feitos apenas estímulos de som e de movimentos com os braços.

UMA CAIXINHA DE SURPRESAS

“O primeiro diagnóstico que o médico me deu foi que ele não iria andar, não iria falar, talvez ficasse na cama. Os médicos não estão preparados para falar com os pais e os pais não estão preparados para receber a notícia”, rememorou mãe de Arthur sobre a primeira consulta no neurocirurgião. 

Paula disse que se sentiu arrasada pelo fato de ter em seus braços um bebê no qual saberia qual seria o seu destino: “Ele era uma caixinha de surpresa no momento”.

Graças ao rápido tratamento, Arthur, hoje com 9 anos, não possuí sequelas do AVC, vive normalmente e desde os 3 anos não faz usos de remédios e de tratamento fisioterápico, o que para sua mãe representa o mais vitorioso momento desde o seu nascimento.

Aos 6 anos, uma nova bateria de exames foi solicitada pela equipe médica que acompanha Arthur, e foi percebido que a cicatriz em seu cérebro é de antes de seu nascimento, ou seja, o que eles desconheciam é que seu AVC ocorreu ainda no útero. As causas não são claras. O mais provável é que Paula tenha sofrido alguma alteração que tenha ultrapassado a placenta e o atingido.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS

Tanto Sandra quanto Paula enfrentaram dificuldades para conseguir informações sobre o problema dos filhos. Elas se conheceram por meio das redes sociais e hoje administram uma página no Facebook (AVC em crianças, casos raros, mas reais) 

Dessa iniciativa, muitas famílias são beneficiadas com dados sobre a doença, além de buscar forças nos testemunhos que são contatos. Parte dessas histórias estão registradas no livro que possui o mesmo nome da página, lançando em 2017, pela editora Multifoco.

RARO, MAS COMUM

Em todo mundo, o dia 29 de outubro é destacado como de combate ao AVC. No Brasil, é organizado pela ONG Nossa Casa, primeira plataforma nacional destinada a paralisia cerebral e o AVC Infantil e pelo ANVIA, grupo de pesquisa da UNICAMP que investiga Anormalidades Neurovasculares na Infância e Adolescência, o Dia Mundial do AVC Infantil.

Maria Valeriana Leme de Moura Ribeiro, neuropediatra, presidente do Grupo CNPq Anvia e co-fundadora da ONG Nossa Casa - Um lugar para falar de Paralisia Cerebral e AVC Infantil, explicou à reportagem que 1 em cada 3 mil nascidos sofre com o AVC infantil.

Dentre os principais motivos estão as malformações do coração apresentadas logo após o nascimento, doença ou inflamação dos vasos do sistema nervoso central ou vasculopatia ou vasculites e traumas em acidentes. Anemias, como a falciforme; malformações dos vasos sanguíneos, complicações de infecções, como em casos de otite ou meningite.

A neuropediatra disse, ainda, que a principal diferença entre o AVC ocasionado em adultos para os que acontecem em crianças estão nas causas, mas que as sequelas de ambos são semelhantes. 

Ao falar dos sintomas do acidente cerebral infantil, Maria Valeriana destacou: “As crianças podem ficar confusas e até desmaiar. Perda ou dificuldade para movimentar um dos lados do corpo, convulsão, perda da fala e ‘repuxamento’ da boca. Todos devem estar atentos para o atraso do desenvolvimento motor global”, conclui.

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