INTERNACIONAL

Dom Luiz Fernando Lisboa

A Igreja é uma presença de esperança em Moçambique

Por Cleide Barbosa e Jenniffer Silva
22 de abril de 2019

Em entrevista à rádio 9 de Julho, Dom Luiz Fernando falou sobre os principais desafios da evangelização na África

Diocese de Pemba

Em entrevista à rádio 9 de Julho, Dom Luiz Fernando falou sobre os principais desafios da evangelização na África

Um exemplo concreto dessa integração é o trabalho realizado por Dom Luiz Fernando Lisboa, 63, natural de Marquês de Valença (RJ), que atuou em Moçambique de 2001 a 2008 ainda como padre, e desde 2013 foi nomeado pelo Papa Francisco como Bispo para a Diocese de Pemba, região Norte daquele País.

Em entrevista à rádio 9 de Julho, Dom Luiz Fernando falou sobre os principais desafios da evangelização na África, da solidariedade da Igreja para com as vítimas do ciclone Idai, ocorrido em 14 de março deste ano, que devastou o Malawi, o Zimbábue e a parte central de Moçambique. Comentou, ainda, sobre a expectativa para a visita do Papa Francisco, agendada para o início do mês de setembro. Confira a íntegra da entrevista.

 

QUAL É ATUAÇÃO DA IGREJA EM MOÇAMBIQUE?

Dom Luiz Fernando Lisboa – Eu diria que a Igreja na África é muito antiga e tem grandes santos dos séculos passados. Aqui na região de Moçambique, porém, a Igreja é bastante jovem. Nossa Diocese tem apenas 60 anos e seu início se deu com os missionários monfortinos. Todo o nosso trabalho agora é de organização e de continuar aquilo que já vinha sendo feito: organizando a Igreja em pequenas comunidades, valorizando muito os ministérios leigos. A Igreja em Moçambique é uma Igreja ministerial, pois nós ainda temos poucos padres ordenados. Ao todo, são cerca de 300 padres diocesanos, contudo o País é muito extenso. Então, os leigos participam, exercem ministérios e ajudam a levar a Igreja à frente.

 

COMO O SENHOR DESCREVE A REALIDADE SOCIAL DE MOÇAMBIQUE?

A África em si é um continente que sempre foi explorado. Foi dividida pelas nações europeias, repartida como se reparte um bolo – tantos países ficam para a Inglaterra, tantos para a França, tantos para a Espanha, tantos para Portugal. Infelizmente, foi isso o que aconteceu na África, que passou por uma colonização muito forte. Entre os anos 1960 e 1980, os países foram lutando por sua independência. Moçambique obteve sua independência em 1975. Agora, nós estamos vivendo uma outra colonização, a colonização das grandes empresas, das multinacionais tentando se apropriar dos recursos africanos. A África tem muitos recursos naturais: gás, petróleo, diamante, pedras preciosas, grafite. Então, nós estamos vivendo uma espécie de segunda colonização, e isso preocupa muito, faz a população sofrer e não oferece condições verdadeiras para que este povo – que é o verdadeiro dono da terra – tire sua subsistência e possa viver com dignidade.

 

ALÉM DO CICLONE IDAI, QUE AGRAVOU AS CONDIÇÕES DE VIDA DA POPULAÇÃO, QUE OUTROS DESAFIOS EXISTEM?

Moçambique está passando por um momento muito difícil. Aqui em nossa Província, que fica na parte norte do País, temos sofrido ataques armados em que já morreram cerca de duas centenas de pessoas. Esses ataques são feitos indistintamente, não são ataques religiosos como têm acontecido em outros países: morrem muçulmanos, católicos, evangélicos e pessoas de religiões tradicionais.

Isso começou há um ano e meio. O povo tem sofrido muito, pois, além da perda de vidas humanas, muitas vezes nesses ataques se queimam mais deuma centena de casas. Há um número grande de deslocados, e a Igreja tenta acompanhá-los. Temos missionários nos cinco distritos nos quais já aconteceram os ataques. Eles continuam lá, sendo um centro de apoio para a população. Muitas pessoas procuram os missionários para buscar orientação, para buscar consolo.

Nós temos participado e organizado campanhas internacionais para ajudar as pessoas que perderam tudo, que abandonaram suas aldeias por medo, que já não plantam nem produzem e, por isso, há falta de alimentos, de roupas, de habitação. A Caritas diocesana, com o apoio das Caritas de outros países, juntamente com as organizações da sociedade civil e com o próprio governo, estão tentando atender as famílias necessitadas aqui na zona Norte. Na região do Centro, aconteceu uma catástrofe natural, o ciclone Idai, que atingiu quatro províncias, praticamente destruiu a segunda cidade do País, Beira, que ficou 90% devastada, com mais de 500 mortes e milhares de desabrigados. Há uma corrente muito forte de solidariedade no mundo inteiro para ajudar as vítimas, não somente da cidade de Beira, mas de um total de quatro províncias. Infelizmente, na zona Sul do País, especialmente na Província de Inhambane, temos o problema da seca. Então: no Norte, ataques; no Centro, chuvas intensas; e no Sul, o povo está sofrendo com a seca.

 

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO APOIO DE TODOS OS CRISTÃOS ÀS POPULAÇÕES AFRICANAS?

Todos nós estamos empenhados neste momento para atender as vítimas do ciclone e das fortes chuvas do Centro. A melhor maneira de ajudar é por meio da Igreja, já que é confiável que a oferta de fato chegue por meio da Caritas. Há outras organizações no mundo inteiro, como a Cruz Vermelha, que estão ajudando.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas Brasileira lançaram uma campanha de apoio às vítimas. Todos aqueles que desejarem ajudar, participar desta campanha de solidariedade, que procurem nas redes sociais a campanha da CNBB e da Cáritas Brasileira em prol das vítimas de Moçambique. Com certeza, Deus irá abençoar cada um que se dispuser a ajudar os atingidos por essa tragédia humanitária.

 

QUAL A EXPECTATIVA PARA A VISITA DO PAPA FRANCISCO A MOÇAMBIQUE EM SETEMBRO?

A visita do Papa Francisco será um grande consolo para todo o povo moçambicano. Nós vivemos momentos muito difíceis, e a presença do Santo Padre, com seu amor pelos pobres, sua solidariedade constante no mundo inteiro, com a sua abertura para o diálogo entre as religiões, será muito importante para confirmarmos a nossa fé, para ser uma presença de esperança.

Nós definimos essa visita em três palavras: esperança, paz e reconciliação. Três palavras importantíssimas para nós aqui em Moçambique. Que o Papa venha como mensageiro da paz, alguém que traga esperança para esse povo que tem passado por situações tão difíceis, e venha como alguém que reconcilia, que une as partes diferentes. Nós estamos muito felizes, será um bênção. Ele ficará pouco tempo, mas será o suficiente para oferecer uma animação muito grande para a nossa Igreja e – por que não? – para todo o País.

 

COLABORE COM A CAMPANHA

SOS África:

Moçambique, Zimbábue e Malawi

Depósito em nome da Cáritas Brasileira

(CNPJ – 33.654.419/0001-16) em uma das seguintes contas:

Banco do Brasil (Ag: 0452-9; C/C: 49.667-7)

Caixa Econômica Federal (Ag: 1041; Op: 003; C/C: 4322-3)

Santander (Ag: 3100; C/C: 13.061645-0)

 

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