SÃO PAULO

Nossa Senhora dos Remédios

A histórica Paróquia Nossa Senhora dos Remédios no Cambuci

Por Nayá Fernandes
16 de outubro de 2018

Localizada na Rua Tenente Azevedo, 182, a Paróquia tem como Pároco o Padre Ricardo Cardoso Anacleto, Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Com estilo colonial, edificada entre os bairros da Aclimação e do Cambuci, a Paróquia Nossa Senhora dos Remédios tem uma história que remonta ao período abolicionista no Brasil e passa hoje por uma renovação pastoral e estrutural. Localizada na Rua Tenente Azevedo, 182, a Paróquia tem como Pároco o Padre Ricardo Cardoso Anacleto, Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense.

Em entrevista à reportagem do O SÃO PAULO, Padre Ricardo falou sobre as mudanças e reestruturações pelas quais a Paróquia está passando e a excelente participação da comunidade. “Logo depois que fui empossado como Pároco, em fevereiro deste ano, decidimos incluir mais horários de missa e atendimento de confissões, e distribuímos cerca de 30 mil folders pelo bairro. A resposta das pessoas foi muito positiva”, explicou o Padre. 


HISTÓRIA 

A primeira Capelinha de São Vicente Ferrer que abrigou a imagem de Nossa Senhora dos Remédios foi construída ainda no século XVII, e sobre ela, em 1836, foi erguida a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.

Em 1864, algumas casas junto à igreja foram desapropriadas para dar lugar ao Largo do Pelourinho (posteriormente Largo 7 de setembro). No quarteirão onde hoje se encontra a Catedral da Sé, foi construído, nessa época, o Teatro São José. Essa recordação histórica é importante, pois a proximidade do Pelourinho fortaleceu as raízes negras dos fundadores da Confraria Nossa Senhora dos Remédios, responsável pela igreja durante muitos anos. 

A igreja abrigou a tipografia do jornal abolicionista “A Redenção” e foi símbolo do espírito de libertação que crescia entre os paulistas. Assim, a história da Igreja dos Remédios ficou para sempre ligada ao movimento abolicionista de São Paulo. Nas novenas de maio e outubro, o povo cantava entre rezas: “Pai, vossos míseros filhos são iguais perante a lei...”.

Tais recordações estão no livro “Cambuci Ontem e Hoje”, de Atilio Lucchini, que conta a história das igrejas presentes no bairro, publicado em 2006.

O livro explica também que a Igreja dos Remédios, além de berço da ideia abolicionista, foi amparo dos escravos. “Os que estavam nas senzalas do interior faziam votos à Senhora dos Remédios, e os que viviam em São Paulo se refugiavam no interior da igreja e ali depositavam os ferros que os aprisionavam, como oferenda e esperando receber a ‘bênção da liberdade’”, informa o texto. 

Contudo, essa primeira igreja foi demolida em 1943, em vista do Viaduto Dona Paulina, apesar dos protestos do povo, como atestam documentos da época. Em 1944, a Confraria se transferiu para a nova igreja no Cambuci, projetada e construída pelo engenheiro Malfati Buchigmani, baseada no estilo colonial. 

O livro informa que a construção da nova igreja buscou reproduzir, em parte, a fachada e o interior do antigo templo, acrescidos de duas torres com cúpula bizantina. “Ao transferir-se, a Confraria trouxe, além da primitiva imagem de Nossa Senhora dos Remédios, outras como a de São Judas Tadeu, Santa Rita, Senhor dos Passos e São Vicente Ferrer. A mudança fez crescer ainda mais o amor do povo pela Senhora dos Remédios. No dia 25 de junho de 1966, o Cardeal Agnelo Rossi, então Arcebispo, elevou a Capela à categoria de Paróquia”, continua o texto.

Padre Ricardo mostrou à reportagem uma edição do jornal Gazeta de São Paulo, de 4 de dezembro de 1942. A notícia mostra o descontentamento da comunidade pela demolição da igreja e reconta como foi a última missa celebrada naquele espaço, no dia 3 de dezembro de 1942. A igreja, que tinha um estilo setencentista, barroco, foi durante anos lugar de refúgio para os escravos. “E seus frágeis muros de azulejos e taipa ergueram-se como proteção instransponível, guardando o escravo que fugia de senhores cruéis”, descreveu o jornal à época. 

A nova igreja, no Cambuci, continuou sendo referência para os movimentos abolicionistas e um espaço onde os escravos libertos se reuniam para pensar e conversar sobre seus direitos. 

 

DEVOÇÃO

A origem da devoção a Nossa Senhora dos Remédios está profundamente ligada à história do surgimento da Ordem da Santíssima Trindade para a libertação dos cativos, os padres trinitários.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro escreveu sua tese de doutorado, publicada em livro, sobre “A Libertação dos Cativos sob o Manto de Nossa Senhora dos Remédios”. Na obra, Lidice fala sobre uma das primeiras vezes em que a mãe de Jesus foi invocada como Nossa Senhora dos Remédios, conforme trecho reproduzido a seguir:

“Conta-se que em uma das missões de resgate, no ano de 1202, em Valência, São João da Mata havia levado uma quantia em dinheiro conforme acertado com o sultão para a redenção de um certo número de cativos. Chegando em Valência, na Espanha, porém, o Sultão impôs a necessidade do dobro da quantia previamente estabelecida, do contrário não realizaria a entrega dos cativos. São João da Mata, atormentado por esta imposição, orou a Deus, implorando por ajuda celeste para a resolução do problema. Durante sua oração, a Virgem Maria lhe apareceu, entregando-lhe uma bolsa de moedas para ‘remediar’ a situação em que se encontrava. Foi a partir desta data, que a Virgem passou a ser reverenciada pelos Trinitários por meio do título de Nossa Senhora dos Remédios.” 

Crianças que se preparam para a Primeira Eucaristia participam da Catequese aos sábados
 

A autora conclui, assim, que a devoção a Nossa Senhora dos Remédios está ligada à missão dos Trinitários na redenção dos cativos nos séculos XII e XIII. “Há pesquisadores que associam Nossa Senhora dos Remédios a uma devoção portuguesa. A imagem que temos na nossa igreja, contudo, é de origem espanhola, o que confirma a versão de Lidice”, explicou Padre Ricardo.

 

CAMBUCI

Os altos e grandes prédios que têm surgido na região do Cambuci transformam, uma vez mais, a configuração da região. De acordo com o livro que foi publicado em 2006, no centenário do Cambuci, as origens da região remontam ao século quinhentista, quando ali estiveram os jesuítas, antes de chegar ao Pateo do Collegio: “Os jesuítas passaram junto a um grande morro e um pequeno córrego, que denominaram Cambuci e que serviu para pouso dos viajantes”

 No século XX, o Cambuci abrigou muitas das indústrias que se instalaram em São Paulo. A maior parte era oficinas artesanais ou semi-industriais, produzindo bens de consumo. O bairro continua a ter um caráter industrial, principalmente com pequenas fábricas. Sobre o fluxo migratório, o Cambuci recebeu, a partir de 1850, um grande número de italianos. Havia portugueses, espanhóis e imigrantes de outras nacionalidades. “Hoje, vemos a presença de muitos imigrantes, tanto de origem latina, como haitianos, africanos, chineses e também italianos”, disse Padre Ricardo à reportagem.

 

RENOVAÇÃO

Do 26º andar do Edifício Jardim Tropical, onde mora Marilda Barbosa, a Igreja Nossa Senhora dos Remédios pode ser vista cercada por prédios de alto padrão e casas de vilas, mostrando a diversidade que configura a região. 

Marilda é secretária da Paróquia que frequenta há cerca de 20 anos. Ela e Marinez dos Santos Machado, coordenadora paroquial da Catequese, demonstraram alegria em ver quantas iniciativas estão surgindo na Paróquia, sobretudo voltadas para as crianças e adolescentes.

Um dos sonhos do Padre Ricardo é a aquisição do terreno que fica ao lado da igreja e a construção de um centro da juventude. No dia da visita da reportagem, dois grupos de crianças participavam da Catequese. Nykolas Winston, 12, e Carolina Martins Junqueira de Sousa, 10, estão se preparando para a Primeira Eucaristia, que acontecerá no próximo mês. Para eles, a comunidade é um lugar para conhecer melhor a Igreja Católica e fazer novos amigos.

 

UM CAMINHO EM COMUM

Além da recuperação da igreja do ponto de vista histórico, a restauração do altar e das imagens, projetos sociais como a distribuição de cestas básicas e o trabalho junto às novas comunidades, com a participação da Missão Belém e da Aliança de Misericórdia têm ajudado os paroquianos a aprofundarem a vivência da caridade. 

“Todas as quartas-feiras, nós fazemos a sopa que é distribuída na região do Glicério, e a igreja é um ponto para distribuição de leite e roupas”, contou o Padre, que assume, pessoalmente, atividades como a Catequese para os adultos e acompanha de perto a Catequese dada às crianças. Além disso, o Padre dedica suas quartas-feiras para as visitas às famílias. “Minha meta é realizar cem visitas por ano, pois quero conhecer os paroquianos”, disse.

A missa da Paróquia, aos sábados, às 17h, reúne as crianças da comunidade 
 

Além disso, Padre Ricardo falou sobre a criação do Conselho Paroquial de Pastoral (CPP) e do diálogo que busca com igrejas de outras denominações que estão próximas da Paróquia. Ele pediu à Prefeitura que placas indicativas sejam colocadas para informar sobre o caráter histórico e turístico da igreja, devido à questão abolicionista. Os ferros, que eram levados pelos escravos, foram conservados até pouco tempo na Paróquia, mas infelizmente não foram mais encontrados.

Em dezembro, 22 casais receberão o sacramento do Matrimônio, numa celebração comunitária e, no mesmo mês, haverá a reinauguração dos sinos. Além disso, ainda neste semestre um grupo de jovens começará na Paróquia, bem como um núcleo da Pastoral Familiar. “A ideia é reforçar as pastorais que já existem, como a Pastoral da Criança, que acaba de completar um ano, e ajudar na criação de novas pastorais, com a participação de todos, crianças, jovens, adultos e idosos. Também queremos que a Nossa Senhora dos Remédios seja uma referência para todos os que buscam consolo na dor”, afirmou o Padre.

O Sacerdote explicou que o sínodo arquidiocesano tem motivado todas as mudanças e esse momento de renovação vivido pela Paróquia. “A comunidade tem se envolvido de maneira concreta na vida da Paróquia e temos feito um bonito caminho de descoberta juntos”, salientou.

 

 

 
 
 
 
 

 

 

 

 

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