NACIONAL

Educação

A família e a escola unidas no processo educativo

Por Daniel Gomes
24 de novembro de 2018

Criada na Espanha e inspirada na antropologia cristã, educação personalizada ganha força no Brasil com vistas ao pleno desenvolvimento das virtudes humanas

Colégio Catamarã/Divulgação

Quem não gostaria de ser descrito desta maneira: “Ele é uma pessoa segura, não se deixa manipular, faz escolhas com liberdade e reconhece quando errou”? Formar um ser humano com essas e outras virtudes é a base da educação personalizada. Criado no início dos anos 1960, esse modelo educativo é adotado por diferentes colégios no mundo, sendo que ao menos dez destes estão no Brasil (veja a relação na página ao lado). 

 

ORIGENS

Em 1963, na Espanha, um grupo de pais e professores sistematizou uma instituição educativa – Fomento de Centros de Ensino – com a proposta de que as famílias e as escolas atuassem conjuntamente na educação das novas gerações. Essa iniciativa ganhou o apoio de São Josemaría Escrivá, o fundador do Opus Dei, que sempre dizia aos pais que a primeira missão que lhes cabia era a de educar bem os filhos. 

As bases da educação personalizada foram arquitetadas por Víctor García Hoz, fundador da Sociedade Espanhola de Pedagogia. “A partir de uma concepção antropológica cristã, ele desenvolveu um modelo pedagógico muito completo, que conta com a família e com a comunidade social em que a criança ou adolescente está inserido. Dessa unidade entre família e colégio, se consegue o desenvolvimento das virtudes, que são as forças interiores, hábitos arraigados, que vão se tornando permanentes na vida de uma pessoa, de modo que ela possa fazer as coisas por motivação própria e de uma maneira cada vez mais perfeita”, explicou, ao O SÃO PAULO, Cláudio Alberto Rigo da Silva, diretor-geral do Colégio Catamarã Referência, localizado no Jardim Europa, na zona Sul da Capital Paulista.  

 

NO BRASIL E NO MUNDO

Fundado em 1995, o Colégio Catamarã, em suas duas unidades – Referência (masculina) e Vita (feminina) - adota o modelo de educação personalizada, que também é seguido no Brasil por, ao menos, outras nove instituições de ensino ligadas à rede Solar Colégios, a representante oficial no País da Fomento de Centros de Ensino. 

Além de Brasil e Espanha, esse modelo educativo é utilizado em colégios de outros países, como Reino Unido, Portugal, França, Polônia, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Suécia, Itália, Estados Unidos, México, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Guatemala, Panamá, Peru, Equador, Bolívia, Paraguai, Chile, Argentina, Uruguai, El Salvador, Emirados Árabes, Líbano, Nigéria, Congo, Indonésia, Filipinas e Austrália.

 

DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL

A base da escola personalizada é olhar para cada estudante como uma pessoa única, tal qual cada pai enxerga um filho. “Não é somente um olhar para o cognitivo, para o que a criança está aprendendo, mas também para como se desenvolve em suas virtudes, potencialidades, capacidades, a fim de que alcance o máximo que pode dar”, detalhou Cláudio Rigo. 

Além desse olhar singular, a educação personalizada ajuda na promoção da autonomia do estudante, na medida em que ele próprio passa a dominar seu desenvolvimento e aprendizagem.

De acordo com Patricia Fleury, diretora-geral do Colégio Catamarã Vita, a educação personalizada permite um olhar integral para todas as dimensões do ser humano. “Para efeitos pedagógicos e para que possamos entender o que significa a pessoa, dividimos essas dimensões em intelectual, afetiva, volitiva (a educação da vontade), transcendental (sair de si mesmo ao encontro dos outros e abertura a Deus) e física”, explicou à reportagem, destacando, ainda, que tais dimensões nunca são analisadas em separado: “Vê-se o aluno na sua integralidade. Então, por exemplo, se eu não tenho controle das minhas emoções, elas afetam o que eu faço. Se eu não tenho a vontade bem formada, também não vou conseguir ter um desempenho acadêmico bom. Se eu tenho alguma questão física, isso vai afetar as demais dimensões”, exemplificou. 

Ainda segundo Patricia, na educação personalizada “há todo um plano para se trabalhar as virtudes nas diferentes etapas, para que os valores sejam incorporados de uma forma ativa na vida de cada um, ou seja, é um hábito que é adquirido com esforço e com base na repetição, mas não fica em um valor abstrato. É algo que cada pessoa incorpora para a própria vida, é a formação do caráter”. 

 

ACOMPANHAMENTO INDIVIDUAL

Para o crescente desenvolvimento das virtudes dos estudantes, é fundamental a atuação dos tutores, professores da própria escola que acompanham os alunos individualmente ao longo de toda a vida acadêmica. A cada 15 dias, tutor e tutorado conversam pessoalmente, e a cada dois meses o diálogo do tutor é com os pais, a fim de traçar um Plano Pessoal de Melhora (PPM), alinhando ações e metas que cada estudante deve cumprir tanto no ambiente escolar quanto em casa.

“Esse tutor sempre vai olhar o aluno naquelas cinco dimensões e vai conversar com ele para ajudar que desenvolva suas virtudes, principalmente por meio do trabalho acadêmico. O esforço que o aluno precisa colocar em sua aprendizagem é o canal para o desenvolvimento de todas as virtudes que ele vai adquirir”, explicou Cláudio Rigo, destacando, ainda, que uma tutoria bem-sucedida colabora com a eficácia do trabalho dos demais professores, na medida em que o corpo docente, ciente das dificuldades de cada estudante, poderá encontrar caminhos para melhor motivá-lo a superá-las.

 

UNIDADES DIFERENCIADAS

Embora não seja padrão em todos os colégios adeptos da educação personalizada, o modelo “single sex education”, ou seja, de unidades de ensino distintas para meninos e meninas, é um instrumental considerado importante para a eficácia do processo de aprendizagem.

Desde 2015, o Catamarã adota essa diferenciação: as meninas de 6 a 17 anos estudam na unidade Vita, no bairro do Itaim Bibi, onde também há a educação infantil mista de 2 a 5 anos, e os meninos de 6 a 17 anos ficam na unidade Referência, no Jardim Europa. 

Em ambas, os alunos estudam em período integral, das 8h às 16h, com os mesmos objetivos pedagógicos, programas de estudos e ferramentas didáticas, em turmas com média de 15 a 20 estudantes. 

“Parece um contrassenso, mas ao diferenciar, você faz com que todos tenham oportunidades iguais. Os colégios andam juntos. A grade curricular de um é igual à do outro, e, ao fugir dos estereótipos, se dá a igualdade de oportunidades. Em aulas mistas, muitas vezes, as meninas são vistas de uma maneira, os meninos de outra, há estereótipos por parte de professores de que meninas não são tão boas em Matemática, de que meninos não são tão bons em línguas, por exemplo. Em um colégio só com meninos ou só com meninas, há uma libertação desses rótulos, pois cada um pode ser como de fato é”, explicou Patricia Fleury, chamando a atenção para alguns detalhes comportamentais das estudantes. 

“Aqui no Vita, vemos que as meninas não estão preocupadas em aparentar, estão preocupadas em ser. Elas não vêm para a escola toda produzidas, maquiadas, tentando se mostrar para os outros. Elas são quem são, e isso dá uma liberdade para que cresçam e se desenvolvam plenamente, que é a proposta da educação personalizada”, destacou a educadora. 

Claudio Rigo assegurou que essa educação diferenciada traz resultados melhores que os alcançados em uma escola mista, e tem sido vista como uma boa solução em países desenvolvidos com elevados índices de abandono escolar masculino. “Nos Estados Unidos, havia duas escolas públicas de educação diferenciada até 1995; agora já são quase 120. Se formos contar as escolas privadas, no início dos anos 2000 eram quase 40; hoje são quase mil”, comentou, recordando, ainda, que entre os dez melhores colégios ingleses sete adotam esse modelo que agrupa meninos e meninas em unidades escolares diferenciadas. 

Os dois diretores ressaltaram que o fato de estudarem em escolas separadas não implica que meninos e meninas não interajam ao longo da vida acadêmica, pois são realizados eventos escolares conjuntos e a proximidade entre as famílias proporciona muitos momentos de socialização entre os estudantes fora do ambiente escolar. 

 

A CAMINHO DA UNIVERSIDADE E DO MUNDO ADULTO

Em um modelo educativo centrado no desenvolvimento das virtudes humanas, o futuro profissional dos estudantes também é tratado com atenção, incluindo a preparação para o ingresso nas melhores universidades do Brasil e do exterior.  

“Nós percebemos que se o aluno está bem nas demais dimensões, o acadêmico passa a ser mais um fruto. O aluno que tem fortaleza, resiliência, que faz um trabalho até o final, é um aluno bem mais engajado academicamente, porque ele se esforça por melhorar. Então, esse olhar integral para com o aluno potencializa a parte acadêmica”, comentou Patricia. 

Cláudio Rigo destacou que, ao longo de toda a formação escolar, os estudantes do Colégio Catamarã são preparados para pensar criticamente: “Eles aprendem a argumentar, pois no Ensino Médio é o momento de enfrentar aqueles temas polêmicos na área de Biologia, de Filosofia, como as questões do aborto, células-tronco, as ideologias marxistas. Os professores procuram fazer com que os estudantes abordem cientificamente esses problemas, de forma que o aluno tenha as respostas científicas para tomar uma postura ética correta ao longo da vida”.

 

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