NACIONAL

Educação

‘A educação é uma questão urgente no País’

Por Fernando Geronazzo
04 de dezembro de 2018

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o professor Antonio Carlos Caruso Ronca falou sobre os desafios da educação básica no Brasil

Arquivo pessoal

Em entrevista ao O SÃO PAULO, o professor Antonio Carlos Caruso Ronca falou sobre os desafios da educação básica no Brasil. Atual coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação na PUC-SP, Ronca já foi reitor dessa universidade, presidente do Conselho Nacional de Educação e assessor do Ministério da Educação. Para ele, a educação precisa ser considerada como um único processo, independentemente da sua esfera de competência. Leia a íntega a seguir. 

 

O SÃO PAULO - QUAL É A ATUAL SITUAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA NO BRASIL?

Professor Antonio Carlos Caruso Ronca - Antes, eu preciso fazer algumas observações preliminares. A primeira é que, ao contrário do que se tem dito, a educação tem melhorado no Brasil e alguns números mostram essa evolução. No entanto, o conjunto de problemas é tão grande que ainda resta muito por fazer. Só que também temos evoluído em alguns aspectos, sendo que um deles é a taxa de atendimento escolar. Segundo dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em 2017, nós atingimos 96,4% de atendimento escolar. O primeiro ano do Ensino Fundamental chega a atingir 98%, porém o número vai caindo nos anos seguintes. No entanto, precisamos considerar que, em 1970, essa taxa era de 40%.  Então, o índice de acesso está muito melhor , o que mostra que a educação tem jeito. 

Há, ainda, a questão da desigualdade, ou seja, a diferença entre a educação pública e a privada, que é brutal. Nós temos uma educação pública que apresenta problemas muito graves. A meu ver, a educação privada deve existir. A Constituição Federal acerta quando diz que a educação privada é uma opção das famílias, mas respeitando-se essa opção das famílias, o Estado tem por obrigação oferecer a todas as famílias, crianças e jovens a possibilidade de ter um educação pública de qualidade e universal. 

 

QUAIS OUTROS ASPECTOS O SENHOR DESTACA?

Olhando para o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, há uma questão grave e que muitas vezes não é considerada com a devida importância. Trata-se da ineficiência dos sistemas estaduais e municipais para aprovar o aluno na idade certa. Essa é uma verdadeira chaga na educação, pois, uma vez reprovado, esse aluno vai repetir o ano, ficando defasado e, muitas vezes, a escola não está preparada pedagogicamente para lidar com essa situação, o que gera o abandono e a evasão escolar. Hoje, há alguns estados com um índice de distorção entre idade e série de 25% a 30%. Isso acarreta atraso, gasto financeiro, problemas para os professores e para as próprias escolas. Essa distorção tem repercussão no Ensino Fundamental que, geralmente, é de competência do governo estadual, que nem sempre dialoga com o município. A repercussão será maior nas últimas etapas do Ensino Fundamental que, por sua vez, repercutirá no Ensino Médio. Há estados em que o índice de reprovação no 3º ano chega a 10%, é alto!

 

E COMO EVITAR O ALTO ÍNDICE DE REPROVAÇÃO?

A escola não foi feita para reprovar. Se acontecer, deve ser uma exceção. Só que, em muitos casos, por diversas situações, como a ausência de um trabalho pedagógico coletivo, muito professores têm a reprovação como único recurso. É absolutamente importante que haja um trabalho de coordenação pedagógica, que corrige os problemas no desempenho do aluno no decorrer do processo. No entanto, isso exige um trabalho coletivo na escola. Por outro lado, aprovar automaticamente também não é a solução. Eu sou contra uma reprovação precipitada e generalizada, assim como sou contra uma aprovação indiferente, automática. Educação é um fenômeno complexo e precisa ser considerado como um único processo, independentemente da sua esfera de competência. 

 

EM QUAIS ETAPAS OS NÚMEROS SÃO MAIS PREOCUPANTES?

Os quatro anos finais do Ensino Fundamental mereceriam maior atenção da nossa parte. Segundo dados do Inep, 1,7 milhão de estudantes dos últimos anos Ensino Fundamental foram reprovados ou abandonaram a escola em 2017. Esse dado é três vezes maior que nos primeiros anos do Ensino Fundamental, o que já exigiria que o poder público chamasse os secretários de educação e organizasse alguma ação coletiva para identificar o que está acontecendo. Outro dado da mesma pesquisa: em 2017, 40% dos jovens com 19 anos não concluíram o Ensino Médio. Isso é alarmante para qualquer governante. Esses 40% não podem seguir adiante nos estudos. Na região Sudeste, o índice de conclusão escolar é de 70%; já no Nordeste o número cai para 50%. Há estados do Nordeste em que metade dos jovens de 14 anos nem sequer frequenta o Ensino Médio.

 

E QUANTO À QUALIDADE DA EDUCAÇÃO DOS QUE PERMANECERAM NA ESCOLA?

De fato, além da questão do acesso e permanência, há a questão grave da baixa qualidade. Se tomarmos a faixa etária de 18 a 24 anos, 17% estão na universidade. É um contingente baixo e que também é fraco do ponto de vista da qualidade. Há dados que mostram que o conhecimento sobre Língua Portuguesa e Matemática, Ciências etc., que são básicos, é muito reduzido, o que dificulta a frequência à universidade. Sem contar que muitos desses nem sempre concluem o Ensino Superior. 

 

QUAL A OPINIÃO DO SENHOR SOBRE A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR QUE ESTÁ EM DISCUSSÃO?

Acredito que a existência de uma Base Nacional Comum Curricular é importante. No entanto, não sei se eu, como dirigente, começaria por ela. Penso que há alguns problemas que vão além dessa dimensão, como mencionei anteriormente. Creio que, uma vez aprovada a Base Curricular, ela dê uma organicidade para a educação. No entanto, o aluno tem a necessidade de uma educação integral, que envolva formação de valores, em ética, em atitudes. Se a escola fica preocupada apenas em transmitir conteúdos, isso será arriscado. 

 

NESSE SENTIDO, A ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL AJUDA?

Sim, desde que haja um projeto político-pedagógico da escola e não seja mais do mesmo, simplesmente aumentando a carga horária. Não sou favorável que a criança permaneça mais de 8 horas na escola. Outro cuidado com essa questão é não criar ilhas de excelência, em que apenas poucas escolas em determinado local ofereçam ensino em tempo integral, porque isso vai aumentar a desigualdade. Se é para implantar o ensino integral, deve ser um direito para todos, com uma proposta curricular específica para essa modalidade.

 

A POUCA VALORIZAÇÃO DOS PROFESSORES TAMBÉM CONTRIBUI PARA OS PROBLEMAS DA EDUCAÇÃO?

Essa situação me angustia muito. Há, na verdade, uma desvalorização dos professores. Primeiro, a profissão do professor não é mais um objeto de desejo das pessoas. Temos um bom número de instituições de Ensino Superior responsáveis por uma formação de professores de baixa qualidade. Esse professor, por sua vez, ganha pouco, não é valorizado no contexto em que trabalha. Por outro lado, há professores com medo, pois são ameaçados por alunos e também por pais, chegando a sofrer violências.

 

APESAR DE TUDO ISSO, HÁ ESPERANÇAS PARA A EDUCAÇÃO?

Com certeza. Estou na educação há 50 anos. Penso que estamos vivendo um momento crítico no Brasil. Nós conseguimos solução para alguns dos graves problemas, mas o caminho está sendo lento e precisa ser mais rápido. As nossas crianças não podem esperar esse ritmo de decisão que os governantes têm. A educação é uma questão urgente no País, não dá para esperar. Esse é um problema de toda a sociedade. Os governantes falam que educação é prioridade, mas isso não é levado à prática. Não digam que faltam recursos. Claro que há! Nós não temos uma prioridade. Educação tem de ser agora! 

 

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