SÃO PAULO

Padre Andreas Lind, sj

‘A Economia de Francisco’

Por José Mariano
19 de julho de 2019

Empresários e outros especialistas da área para pensar sobre como promover um sistema econômico mais humano

O Vaticano planeja, de 26 a 28 de março de 2020, um encontro de economistas, empresários e outros especialistas da área para pensar sobre como promover um sistema econômico mais humano. O evento ocorrerá na cidade de Assis (Itália), a pedido do Papa Francisco. E, também a pedido dele, muitos jovens comparecerão. As informações sobre o evento serão publicadas no site: www.francescoeconomy.org.
Pensando nisso, O SÃO PAULO conversou com o Padre jesuíta português Andreas Lind, formado em Economia e articulista do site “Ponto SJ”, para entender o que define o ensinamento do Papa Francisco sobre a economia. 

O São Paulo – Qual é o papel do dinheiro na vida do cristão?
Padre Andreas Lind – Jesus nos diz que não é possível servir “a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). Se vivermos com o objetivo de fazer cada vez mais dinheiro, usando das nossas forças, dos nossos talentos, das nossas relações, tendo em vista apenas esse fim, caímos na idolatria, porque nos tornamos escravos do dinheiro.
Isso não significa que o dinheiro seja mau em si mesmo, ou que as atividades empresariais lucrativas devam ser rejeitadas. Pelo contrário, devem ser estimuladas e postas a serviço do Reino, onde vigora a lei da caridade. O dinheiro é um meio indispensável para a nossa vida social e para o nosso desenvolvimento coletivo. Devemos saber geri-lo e partilhá-lo em prol do bem comum.

Então, como devemos interpretar a passagem do Evangelho: “é mais fácil passar um camelo numa agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mt 19,24)?
Eis uma passagem muito discutida pelos exegetas bíblicos, sobretudo no que diz respeito às palavras “agulha” e “camelo”, que provavelmente teriam significados, na cultura de Jesus, que hoje não abarcamos imediatamente.
No entanto, tendo em conta o contexto onde a citação surge, percebemos que essas palavras vêm no seguimento do apelo que Jesus lança ao jovem rico: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me” (Mt 19,21).
Jesus fala da dificuldade dos ricos em entrar no Reino, referindo-se a alguém que tem muito e que não é capaz de partilhar, a ponto de se fechar aos outros e de perder a comunhão com Jesus e com o próximo. Jesus não critica o fato de o jovem rico ter muitas coisas; apenas lamenta a falta de liberdade que o impede de partilhar.

Como podemos definir a “Economia do Papa Francisco”?
O Papa Francisco não pretende substituir os especialistas em economia. Limita-se a anunciar a Doutrina Social da Igreja, nomeadamente o princípio do “destino universal dos bens” e a “opção preferencial pelos pobres”. É por fidelidade à Igreja, e não a uma ideologia política, que o Papa denuncia o perigo de uma “economia que mata” (Evangelii Gaudium 53).
Com isso, ele procura colocar a economia a serviço do desenvolvimento integral do ser humano, em vez de o escravizar em função de um crescimento puramente financeiro, cujos beneficiários são poucos e cujos efeitos podem ser nefastos para as próximas gerações. Francisco não menospreza as potencialidades positivas da “atividade empresarial” (Laudato Si’ 129).
Denuncia apenas o perigo de se absolutizar a racionalidade que procura exclusivamente o lucro, mesmo em detrimento de outros valores que confluem para o desenvolvimento do homem e das suas sociedades. Creio que a influência da teologia argentina do povo explica o distanciamento, da parte de Francisco, quer do liberalismo, quer do socialismo marxista.

Por que a Igreja precisa falar de economia?
Para Marx, a religião é negativa – uma alienação – e nos afasta da realidade presente onde nos situamos: se a fé no Paraíso futuro nos imobilizar na miséria, na injustiça, ou nos incapacitar de lutar pela transformação da realidade presente, então a religião se reduz a um “ópio do povo”. 
Porém, antes de assumir a Cátedra de Pedro, Jorge Mario Bergoglio assumiu a seriedade dessa crítica (como fica claro no livro “Sobre el Cielo y la Tierra”, de 2012), enfatizando que, ao contrário do que diz Marx, a fé, como encontro com Jesus, nos compromete com a justiça no presente. A preocupação da Igreja com as questões econômicas ou políticas brota desse compromisso com o Reino de Deus ao qual Jesus nos chama sempre aqui e agora.

Qual a razão de o Papa convocar esse encontro em Assis?
Em primeiro lugar, inspirado na figura de São Francisco, para quem todas as criaturas eram como irmãs, o encontro “A Economia de Francisco” procura responder à urgência dos nossos tempos: hoje sentimos uma fragilidade coletiva pelo fato de o nosso sistema econômico, aliado a um estilo de vida excessivamente consumista, poder pôr em risco a sustentabilidade do planeta, a nossa “casa comum”.
Em segundo lugar, esse encontro se alarga para além da esfera meramente eclesial, pois a gravidade do problema exige a capacidade de unir sinergias, estabelecendo uma cooperação ou um diálogo entre pessoas de credos diferentes e entre diversas esferas da sociedade. 

Quais as semelhanças entre a Laudato si’, de Francisco, e a Caritas in veritate, de Bento XVI?
Francisco cita muito Bento XVI. Enquanto o atual Papa insiste muito na dimensão da “misericórdia”, o seu predecessor não se cansava de falar no “amor” (caritas). Ambos sonham com a possibilidade do dom, da gratuidade, ter um lugar nas relações econômicas. Concretamente, na Laudato Si’ (LS), a encíclica Caritas in Veritate (CV) é 12 vezes diretamente citada.
Por um lado, ambos chamam a atenção para a necessidade de mudar de “estilo de vida”, apelando à “responsabilidade social dos consumidores”, pois “comprar é sempre um ato moral” (LS, 206; CV, 66).
Por outro lado, em um nível mais macroeconômico, Bento XVI insiste nos temas perenes do atual pontificado: “Como afirmou Bento XVI, na linha desenvolvida até agora pela Doutrina Social da Igreja, «para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e consequentes maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios, urge a presença de uma verdadeira autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, João XXIII»” (LS175).

Como a Igreja nos propõe conciliar as liberdades individuais e a busca pelo bem comum?
Segundo o relato bíblico da Criação, Deus confere ao homem o mandato de “dominar” ou “administrar” os outros seres do mundo (cf. Gn 1, 26-28), por um lado, e, por outro, de agir como um jardineiro que “cultiva” e que “guarda” (cf. Gn 2,15).
A imagem do administrador, complementada com a figura do jardineiro, conduz-nos a um enorme respeito pelo planeta na multiplicidade dos seus seres. Não se trata de “dominar” e de “subjugar” o mundo com desdém, mas de estar afetivamente ligado a toda a criação, deixando-se surpreender pelo dom que é habitar o mundo e viver enquanto homem ou mulher.
Sendo assim filhos de Deus, devemos assumir a responsabilidade de exercer o dom da liberdade que temos na administração dos bens de que dispomos e com os quais vivem

As opiniões expressas na seção “Com a Palavra” são de responsabilidade do entrevistado e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editoriais do jornal O SÃO PAULO.

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