NACIONAL

Entregadores de comida por aplicativo

A determinação de Luciano

Por Daniel Gomes
07 de fevereiro de 2020

Há um ano, ele faz entregas de comida encomendadas por aplicativo em uma cadeira de rodas comum na Avenida Paulista

Luciney Martins/O SÃO PAULO

O tempo instável naquela quinta-feira, 23, foi comemorado pela maioria dos entregadores que aguardava, na Avenida Paulista, pelos chamados de pedidos. Afinal, com chuva, mais pessoas buscam os serviços de delivery. 


Para Luciano Oliveira, porém, o tempo chuvoso não é um bom sinal. “O melhor dia para eu fazer entrega aqui na Paulista é com sol. Sou nordestino, então o ‘pau pode comer’”, brinca. Aos 44 anos, o baiano nascido em Porto Seguro vive na zona Leste de São Paulo com a esposa. Luciano é cadeirante e, há um ano, cansou das negativas para a busca de emprego e começou a fazer entregas. 


“Algumas eu consigo fazer, outras não, porque existem ruas com ladeiras enormes, descidas perigosas. Mas já fiz entrega debaixo de chuva, com a cadeira travada apenas com as minhas mãos. Já pensou se eu bato em algum carro? Por isso, sempre procuro trabalhar em área plana, com calçada e em edifícios que tenham grade para eu poder me segurar, caso haja alguma tempestade”, explica. 


Luciano diz que sempre se aconselha com os colegas sobre a viabilidade de uma entrega: “Eles me dizem: ‘Irmão, vá de metrô. Irmão, vá de ônibus’. Daí, quando dá, pego meu bilhete único e vou de ônibus ou metrô. Também pego a ciclovia quando não está garoando. Chego em casa cansado, com dores no quadril, nas pernas, nas juntas, nos nervos, porque faço muito esforço”. 


E qual é a reação das pessoas quando Luciano chega com uma encomenda? “A maioria fica feliz. Algumas ficam abismadas. Na maior parte das vezes, as pessoas dizem: ‘Pois é, não há desculpa para não trabalhar’”, relata, recordando, porém, que já houve quem tenha cancelado encomendas ao saber que o entregador seria um cadeirante.


Luciano usa uma cadeira de rodas comum e diz que consegue fazer, no máximo, quatro entregas por dia, alcançando uma renda mensal de R$ 200. “A minha esposa é aposentada. Eu ainda não, mesmo já tendo três laudos médicos sobre a minha deficiência, atestando minha mobilidade reduzida. Isso foi na Bahia, aqui em São Paulo ainda não tentei ir ver”.


Graduado em Gestão de Políticas Públicas e ex-atleta paralímpico, ele acredita que, se conseguisse uma cadeira mais bem equipada, faria mais entregas: “Esta é uma cadeira de rodas normal. Uma cadeira boa, reforçada, custa entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil. Daria ainda para colocar um kit livre [equipamento que transforma a cadeira em um triciclo motorizado elétrico], que custa entre R$ 5 mil e R$ 7 mil, com uma bateria que dura de sete a nove horas. Uma cadeira assim, com certeza, transformaria minha vida, eu faria entre cinco e seis entregas por dia”.


Para a maioria dos entregadores da Avenida Paulista, Luciano Oliveira é um exemplo de superação diante das condições adversas dessa profissão. “É um trabalho sofrido. Entregador por aplicativo sofre! É discriminado, não é bem visto pela sociedade, mas todo mundo precisa. Aliás, é bem visto quando está chovendo. A pessoa não quer sair na chuva, daí chama o aplicativo. Essa é hora que a gente é alguém de verdade”, conclui. 

 

LEIA TAMBÉM

´Você sabe quem vai entregar a comida?'

A versatilidade de Lucimeire

 

Para pesquisar, digite abaixo e tecle enter.