SÃO PAULO

Dia nacional do migrante

A complexa realidade dos fluxos migratórios no Brasil e no mundo

Por Nayá Fernandes
03 de julho de 2017

Dia nacional do migrante foi celebrado em São Paulo pela comunidade latino-americana, que participou da missa, em espanhol, na Paróquia Nossa senhora Da Paz, no domingo, 25

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Uma pessoa deixa sua casa forçadamente a cada três segundos no mundo. Esse dado corresponde aos deslocamentos internos dentro da mesma região ou país que só em 2016 somaram 6,9 milhões de um total de 65,6 milhões deslocamentos.

Os números foram publicados no relatório “Tendências Globais”, o maior levantamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), em relação ao ano de 2016. São 22,5 milhões de refugiados, somente entre aqueles que saíram devido aos conflitos na Síria. Ao todo, existem 12 milhões de refugiados sírios espalhados pelo mundo ou que se deslocaram dentro do próprio País.

Mas a situação de refúgio não é a única quando se trata de deslocamento humano. Muitas pessoas deixam seus locais de origem em busca de oportunidades ou simplesmente por vislumbrarem uma vida melhor em outro estado ou país. Em sintonia com a Campanha da Fraternidade deste ano, o tema da 32ª Semana do Migrante, promovida nacionalmente pelo Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), foi “Migração, Biomas e Bem Viver Uma oportunidade para imaginar outros mundos”.

A Semana, que acontece anualmente, foi celebrada entre os dias 18 a 25, em São Paulo. O evento terminou com missa presidida pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano, na Igreja Nossa Senhora da Paz, no domingo, 25, ao meio dia.

“No mundo prevalece a migração forçada e não a migração por livre opção. Isso se dá devido às guerras, às perseguições políticas, luta por sobrevivência, conflitos étnicos e religiosos, e também por desastres ambientais. O drama das pessoas migrantes é imenso, sem falar dos riscos de vida”, afirma o texto produzido para a 32ª Semana do Migrante.

 

Mapa das Migrações

De acordo com dados da Max Galka, a partir das informações da Divisão de População das Nações Unidas, registradas entre 2010 e 2015, num documento que se chama “Mapa das Migrações”, os Estados Unidos da América é ainda o país que atrai maior quantidade de imigrantes do mundo todo. No entanto, há também um grande fluxo que sai da América Latina e Ásia rumo à Europa. Na América do Sul, Brasil, Argentina e Chile atraem pessoas dos países vizinhos, menos desenvolvidos economicamente. A Guiana Francesa também tem saldo positivo, com a migração de pessoas oriundas dos vizinhos Brasil e Suriname, além de haitianos.

Ainda segundo o Mapa, apesar da tradição de diversidade e de ser o maior país da América do Sul, o Brasil não parece ser a principal rota migratória do continente. Em números absolutos, segundo dados da Divisão de População da Organização das Nações Unidas, o País fica atrás da Venezuela e da Argentina.

 

Idas e vindas em terras brasileiras

No Brasil, há um grande movimento oriundo dos países vizinhos: Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Mas, o país que continua liderando em números absolutos em termos de migração para o Brasil é o Japão (50 mil), seguido da Espanha (35 mil). Já o movimento de emigração (brasileiros que deixam o país para buscar uma nova vida fora) continua a concentrar-se nos destinos já conhecidos, a maioria para a Europa, América do Norte, China e Austrália. Na América do Sul, Chile e Guiana Francesa recebem brasileiros.

De acordo com artigo “Migrações Internas no Brasil Contemporâneo”, de Mariana Aydos, doutoranda pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), até a década de 1970 os principais determinantes dos fluxos migratórios no Brasil podiam ser apreendidos pelas mudanças na estrutura agrária e no desempenho econômico das cidades de cada região.

“Na década de 1980, a crise mundial e o processo de reestruturação produtiva no Brasil, que flexibilizou a relação entre capital e trabalho, alterou significativamente o contexto das migrações”, afirmou a pesquisadora em seu artigo. O texto continua apontando as mudanças no que se refere às migrações internas até os dias de hoje e chega à conclusão de que “as migrações são causadas por movimentos sociais históricos provenientes de reestruturações sociais e econômicas. Isso provoca um constante dinamismo às migrações dentro do País, onde os fluxos mais volumosos são compostos de idas-e-vindas”.

 

Dia nacional do Migrante

No domingo, 25, às 11h, em frente à Casa do Migrante, na rua Almirante Mauriti, 70, no mesmo quarteirão da Igreja Nossa Senhora da Paz, grupos de migrantes, sobretudo latinos, trajavam roupas típicas de seus países e seguravam imagens de Nossa Senhora com seus diferentes títulos de acordo com seus países de origem, além de outros símbolos, bandeiras e cartazes.

Ali, no centro da cidade, as pessoas que caminhavam em procissão eram saudadas por muitos outros imigrantes que vendiam seus objetos nas calçadas a maioria deles, haitianos e africanos. A missa, que aconteceu na Igreja Nossa Senhora da Paz, começou ao meio dia e foi presidida por Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Pau- lo, e concelebrada com outros sacerdotes, entre eles, o Padre Paolo Parise, diretor do Centro de Estudos Migratórios, e o Padre Antenor Dalla Vecchia, diretor da Casa do Migrante, que fica no complexo ao lado da Igreja da Paz. Estiveram presentes também as irmãs e padres Scalabrinianos, as missionárias seculares Scalabrinianas e membros do Serviço Pastoral do Migrante.

Na homilia, Dom Odilo encorajou a todos a manterem-se firmes na fé, a partir da reflexão da liturgia dominical: “Quero encorajar a cultivarem aqui no Brasil também as suas devoções, principalmente a devoção à Nossa Senhora, Mãe de Jesus, invocada por diferentes títulos”. O Arcebispo lembrou, também, os refugiados por perseguições religiosas.

A ocasião foi também um momento para celebrar os 22 anos da Paróquia Pessoal dos fiéis latino-americanos e o encerramento da 32ª Semana Nacional dos Migrantes. Estabelecida em 11 de junho

1995, pelo então arcebispo, Dom Paulo Evaristo Arns, a Paróquia Pessoal reúne diferentes comunidades de imigrantes latino-americanos que, além da fé, partilham a mesma língua e trocam experiências culturais.

Irene Mendoza Santos, 50, Venezuela na que está no Brasil há 15 anos, afirmou que a situação na Venezuela está muito complicada. “Vivemos uma ditadura disfarçada de democracia e estamos sem comida, medicamentos ou atendimento médico. Devido a isso, muitos venezuelanos estão vindo para o Brasil, pessoas desesperadas de fome, inclusive indígenas. Há 87 dias, o povo está na rua sob repressão do Governo. Chega a 80 o número de mortos, a maioria deles jovens”, disse Irene, em entrevista ao O SÃO PAULO. Nomes de jovens que foram mortos pela violência e repressão na Venezuela foram colocados na cruz, levada em procissão antes da missa. O número de refugiados provenientes da Venezuela para o Brasil quadruplicou nos últimos dois anos.

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