SÃO PAULO

Catedral

A Catedral da Sé pelos olhos de seu sacristão

Por Fernando Geronazzo
29 de janeiro de 2019

O templo que começou a ser construído em 1912 é um marco histórico da cidade

Luciney Martins/O SÃO PAULO

Na sexta-feira, 25, Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo e 465º aniversário da Capital Paulista, a Catedral da Sé completa 65 anos de sua inauguração. Igreja-Mãe da Arquidiocese de São Paulo, o templo que começou a ser construído em 1912 é um marco histórico da cidade.

Nesta edição, O SÃO PAULO conta um pouco da história da Catedral a partir de seu mais antigo funcionário, o sacristão Geraldo Soares de Medeiros, que, em dezembro de 2018, completou 40 anos na função. Ele colaborou com três arcebispos – Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Cláudio Hummes e Dom Odilo Pedro Scherer – e dez curas da Catedral.

Natural de Campo de Santana (PB), Geraldo tem 59 anos. Quando chegou a São Paulo, em 1978, ele foi ajudar seu irmão que até hoje é sacristão na Paróquia Nossa Senhora do Brasil, no Jardim América. Ao tomar conhecimento de uma vaga na Catedral, ele foi indicado para o emprego. “Eu fui registrado como funcionário da Catedral em 1º de dezembro de 1978”, recorda com entusiasmo.

 

OFÍCIO

Inicialmente, Geraldo trabalhou na copa da Catedral. Depois de nove meses, surgiu a oportunidade de trabalhar na sacristia. Ele deve seu aprendizado do ofício de sacristão ao então cura, Monsenhor Sylvio de Moraes Mattos, e ao antigo sacristão, José Lopes da Silva. “Ambos foram muito atenciosos em me ensinar com paciência e atenção este ofício”, conta.

É função do sacristão cuidar da preparação das celebrações, especialmente as grandes concelebrações, zelar pelo material litúrgico e pelo decoro do espaço sagrado do culto. Para isso, Geraldo conta com uma equipe de colaboradores.

Nestes anos trabalho, Geraldo testemunhou muitos momentos marcantes da história da Igreja em São Paulo e da própria cidade. No entanto, sua lembrança desses eventos são a partir de uma perspectiva diferente das demais pessoas.

 

O PAPA

Uma ocasião inesquecível para o Sacristão foi o encontro do Papa Bento XVI com os bispos brasileiros, em 11 de maio de 2007. Geraldo contou que chamou muito a sua atenção o aparato de segurança e a multidão em torno da Catedral: “Fiquei impressionado ao ver pela janela o povo à espera do Papa”

O que o emocionou mesmo foi poder ver de perto o Papa no seu local detrabalho. “Eu estava junto à grade lateral da Capela do Santíssimo, quando o Papa entrou para rezar com Dom Odilo diante do Sacrário. Então, ele passou por mim e me saudou. Foi ali que me dei conta que estava tendo uma oportunidade que muitas pessoas gostariam de ter”, relatou.

 

BEATIFICAÇÕES

Geraldo também se sente privilegiado por ter ajudado a preparar as missas de beatificação do Padre Mariano de La Mata, em 5 de novembro de 2006, e de Madre Assunta Marchetti, em 25 de outubro de 2014: “É gratificante poder ter feito parte desses dois momentos em que a Igreja declarou bem-aventurados pessoas que serviram a Deus em São Paulo. Foi muito trabalho para deixarmos tudo pronto”.

 

DESPEDIDAS

Dos funerais celebrados na Catedral, Geraldo se recorda com emoção dos velórios de Dom Luciano Mendes de Almeida, em 2006, do Cardeal Arns, em 2016 e, sobretudo, do Monsenhor Sylvio, em 1993, a quem ele se refere como um pai. “Meu pai faleceu quando eu tinha um mês e três dias de vida. Portanto, desde que cheguei à Catedral, o Monsenhor Sylvio foi meu pai e me orientou em todos os sentidos. A pessoa que sou hoje eu devo a ele”, afirma, emocionado.

Uma das ocasiões da sua vida em que Geraldo pôde contar com o apoio do Monsenhor Sylvio foi quando ficou viúvo, aos 31 anos, com quatro filhas, sendo uma delas recém-nascida. “Tanto que eu digo que se consegui superar essa perda, hoje consigo superar qualquer outro desafio”, diz Geraldo, que, anos depois, casou-se novamente e teve sua quinta filha.

A missa de corpo presente do operário Santo Dias, assassinado em 30 de outubro de 1979, também rendeu um fato curioso. “Essa foi uma das ocasiões que eu vi a Catedral mais cheia do que o comum”, contou Geraldo.

 

RESTAURO

Geraldo permaneceu na Catedral até no período em que ela ficou fechada para restauro, de 1999 a 2002. “Estava havendo adoração ao Santíssimo, quando o agente procurou o Cura para informar sobre o fechamento. Foi triste, mas já havíamos sido alertados sobre esse risco”, recorda.

“Durante o restauro, ficávamos aqui para dar informações aos operários e acompanhar os trabalhos”, diz o Sacristão. Um dos dias de maior felicidade para Geraldo e os demais funcionários da Catedral foi a reabertura do templo, em 29 de setembro de 2002. “Foi emocionante abrir as portas novamente e ver o povo entrando para celebrar novamente aqui dentro”.

 

SUSTOS

Ao longo destes 40 anos, alguns incidentes também aconteceram. O mais marcante para o Sacristão foi quando um homem entrou na Catedral, na década de 1980, durante uma adoração ao Santíssimo Sacramento, e tentou roubar o ostensório com Jesus Eucarístico. Geraldo narrou que o então Cura, Cônego Dario Bevilacqua, aproximou-se do rapaz para tentar convencê-lo a entregar o ostensório, que estava dentro de uma sacola: “O Cônego dialogava com o homem que, de repente, sacou um revólver e apontou na sua direção. O Padre se manteve calmo, até que o rapaz soltou a sacola e saiu correndo”.

 

TESTEMUNHO

Alguns fatos foram testemunhados apenas por Geraldo, como um que ele considera o mais bonito que já viu. Em meados de 1990, um padre de fora de São Paulo que colaborava por alguns períodos na Sé foi abordado por uma pessoa em situação de rua que pediu a ele um par de chinelos. Como o sacerdote não tinha o que ele pedia, ofereceu-lhe seus próprios sapatos. “Depois o padre me disse: ‘Senhor Geraldo, eu poderia agora pedir para alguém comprar um sapato para mim. Mas, eu voltarei para casa assim, descalço, porque eu quero sentir o que aquele sofredor sentiu’. Nunca mais me esqueci dessa cena”, garante.

 

GRATIDÃO

Completados 40 anos de atuação na Catedral, Geraldo se sente grato a Deus por permanecer tantos anos no mesmo local de trabalho. Ele também manifesta alegria por poder ensinar seu ofício às novas gerações que continuarão a contar a história da Catedral. Para ele, a Sé é mais que um local de trabalho, é sua casa.

 

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