VATICANO

Papa Francisco

6 anos do Papa Francisco: caminhar juntos

Por Filipe Domingues/ Especial O SÃO PAULO
13 de março de 2019

Marca de seu pontificado, a sinodalidade do pontífice consolida orientação de Igreja que ouve e a

Vatican Media

Assim que foi eleito ao pntificado, seis anos atrás, o Papa Francisco instituiu de imediato um conselho de cardeais para auxiliá-lo na reforma dos escritórios da Cúria Romana – iniciativa discutida entre os cardeais eleitores antes do conclave. No entanto Francisco abraçou a ideia de que, como a Igreja é corpo de Cristo, todos os membros precisam dar a sua contribuição.

A Igreja conduzida pelo Papa Francisco é permanentemente sinodal. Quando percebeu a necessidade de repensar a abordagem pastoral para a família, Francisco fez uma ampla consulta às bases e convocou duas assembleias do Sínodo dos Bispos. Quando a juventude chegou ao centro de debate, ele promoveu uma reunião pré-sinodal que consultou 300 jovens de todo o mundo, e milhares de outros pela internet, e, posteriormente, presidiu uma nova assembleia do Sínodo.

E quando se viu diante da chaga dos abusos de menores e vulneráveis, convocou bispos de todo o mundo a Roma para rezar e refletir juntos sobre o problema, seguindo a mesma estrutura: tomar consciência da situação, interpretar a realidade e apresentar metas de ação concreta.

 

ELEMENTO FUNDAMENTAL

Falando com exclusividade ao O SÃO PAULO, o diretor interino da Sala de Imprensa e porta-voz do Vaticano, Alessandro Gisotti, afirmou que, para o Papa Francisco, a “sinodalidade” é uma dimensão constitutiva da Igreja. “A palavra ‘sínodo’ remete a um ‘caminhar juntos’”, recorda. “Isso, no horizonte do Papa, não ocorre somente quando se realizam os sínodos dos Bispos no Vaticano. Para ele, o ‘caminhar juntos’ diz respeito a todo o Povo de Deus, e não só ao Papa e aos bispos.”

Em outras palavras, nestes seis anos de pontificado, o Papa Francisco procura transmitir à Igreja que envolver e consultar todas as partes responsáveis por questões mais importantes não é somente um estilo seu, pessoal, mas um valor intrínseco à Igreja, como enfatizado especialmente no Concílio Vaticano II. O caminho sinodal, como povo de Deus, é realizado coletivamente e não individualmente. Ao realizar esse caminho sob o olhar do sucessor de Pedro, o Papa, a Igreja pratica e aprofunda sua comunhão.

A sinodalidade “deve ser um estado permanente da Igreja, não um fato limitado a eventos ou temas particulares”, diz Gisotti. Em resumo: “Para o Papa Francisco, o caminho da sinodalidade ‘é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio.’”

 

UM COMPORTAMENTO INTERIOR

Nesse tempo de pontificado do Papa Francisco, discernimento e sinodalidade se confundem. “O discernimento é o método e, ao mesmo tempo, o objetivo a que nos propomos: ele se funda na convicção de que Deus está operando na história do mundo, nos eventos da vida, nas pessoas que encontro e que falam comigo”, disse o Santo Padre.

Um sínodo é um “exercício eclesial de discernimento”, definiu o próprio Papa Francisco durante o Sínodo dos Bispos sobre os jovens, em outubro de 2018. “Franqueza ao falar e abertura no ouvir são fundamentais para que o Sínodo seja um processo de discernimento”, acrescentou. E deixou claro: “O discernimento não é um slogan publicitário nem uma técnica organizativa, e, muito menos, uma moda deste pontificado, mas um comportamento interior que tem raízes num ato de fé”.

Discernir é ouvir os outros, mas especialmente ouvir juntos o Espírito Santo, que sugere coisas novas à Igreja com “modalidade e em direções frequentemente imprevisíveis”. O discernimento sinodal requer espaço e tempo. Requer momentos de diálogo, mas também de silêncio e oração. “Essa atenção à interioridade é a chave para realizar o percurso de reconhecer, interpretar e escolher”, disse.

 

É BOM ESTARMOS JUNTOS

Um dos bispos brasileiros e “padre sinodal” no Sínodo dos Bispos sobre os jovens, Dom Gilson Andrade da Silva, diz que toda a narrativa bíblica, desde o livro do Gênesis, remete à ideia de que o ser humano não é feito para ficar sozinho.

Nesse mesmo sentido, “o Papa Francisco nos tem convidado a assumir, com coragem, um processo de uma nova cultura, a cultura do encontro, que nos leve a superar a globalização da indiferença perante Deus e o próximo, e a restituir aos irmãos o reconhecimento de sua dignidade de filho e filha de Deus”, afirma o Bispo Coadjutor de Nova Iguaçu (RJ).

Citando o documento final do Sínodo sobre os jovens, Dom Gilson acrescenta que este novo estilo de conduzir a Igreja pede uma abordagem mais participativa e corresponsável, de forma que “ninguém deve ser colocado nem se colocar do lado de fora, à margem”.

“Na legítima pluralidade de vocações, ministérios e carismas que existem na Igreja, somos convidados a abraçar uma paixão comum que nos anime a percorrer juntos uma mesma estrada, contando sempre com os obstáculos do caminho e a variedade dos caminhantes”, explica Dom Gilson. “A sinodalidade expressa que a força da missão da Igreja vem do mistério central da nossa fé, o mistério trinitário, que a coloca sempre dentro da dinâmica de comunhão que é o próprio Deus.”

 

ESCUTA RECÍPROCA

O porta-voz Gisotti recorda que “para que essa dinâmica da sinodalidade seja frutífera, todavia, é necessário que dentro da Igreja exista uma escuta recíproca” entre “povo fiel, colégio episcopal e Bispo de Roma [o Papa]”, conforme afirmou Francisco, no discurso do 50º aniversário de instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI.

“Um escuta o outro e todos escutam o Espírito Santo”, disse o Papa Francisco na ocasião. Ele mesmo reformou algumas estruturas do Sínodo para torná-lo mais abrangente, mais consultivo e mais dinâmico.

Portanto, embora as ênfases no discernimento e na sinodalidade sejam, de fato, características do pontificado do Papa Francisco, estes são, na verdade, um processo já vivido pela Igreja ao longo da história e de muitas formas – desde as primeiras reuniões dos apóstolos até os concílios, assembleias e congregações.

O Papa Francisco, porém, reapresenta constantemente o método sinodal com um olhar atualizado. “Penso, de verdade, que essa dimensão do caminhar juntos, unida à visão do Papa Francisco de uma ‘Igreja em saída’ que se faz ‘hospital de campo’ para se inclinar sobre as feridas das mulheres e dos homens do nosso tempo, seja precisamente o coração da reforma que o Papa está realizando – dia após dia – com seus gestos, com suas palavras e com sua oração”, afirma Gisotti.

 

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