Opinião

Avós aos 90? Novos costumes e vivência eclesial

Não faz muito tempo, deu nos jornais que algumas mulheres, na faixa dos 30 anos, estavam congelando seus óvulos para que pudessem ter filhos na faixa dos 40, por meio de inseminação artificial. A razão para tal atitude estranha é bem conhecida. Trata-se de exigências do mercado de trabalho, de carreira, de realização individual. Ter um filho tornou-se uma espécie de luxo, para se ter quando já não há muito o que conquistar na vida.

Fiz então um pequeno cálculo. Se um casal resolve ter um filho aos 45 anos, e esse filho por sua vez resolver fazer o mesmo, esses pais só serão avós aos 90, época em que muitos já não terão condições de acompanhar o crescimento dos netos. Perspectiva não muito interessante, certo?

Algo que vem desde o início da humanidade é o ter avós que participam da criação dos pequenos por um período suficiente para que cresçam. Como em muitos outros aspectos da vida contemporânea, então, algo da natureza humana é reprimido para que se ajuste às exigências ou do mercado ou do estilo de vida que se espera de pessoas que pretendem estar na fronteira do avanço dos costumes. A maternidade (ou paternidade, dá no mesmo) é vista como obstáculo para a realização do indivíduo, e mesmo para a realização das mulheres, na medida em que acentua a desigualdade entre homns e mulheres.

Por trás de um raciocínio que nos parece perfeitamente razoável, esconde-se uma realidade perversa: a própria continuidade da espécie. Em outras palavras, as próximas gerações são sacrificadas em nome da realização da presente. A isso podemos chamar de injustiça intergeracional—a presente geração pretende assegurar seus direitos, mas com isso retira o direito mais básico da geração seguinte: o de existir.

Para se solucionar um problema, criase outro, ou seja, para se evitar uma sobrecarga e menores oportunidades para as mulheres, esquece-se que nossa principal preocupação na vida é com a transmissão daquilo que recebemos de nossos pais. Não se pensa aqui em um retorno romântico a um estilo familiar já não mais exequível, trata-se sim de reorganizar as prioridades das pessoas (o que inclui os homens) e da sociedade: estimular a geração de filhos e dar condições para que os casais possam criá-los e educá-los. Isso pode parecer óbvio, mas na verdade deixou de sê-lo. De nada adianta lutar por mais escolas e creches sem outros mecanismos que aliviem dos pais sua tarefa, reconhecidamente onerosa.

Um desses outros mecanismos, que se dissolveu com o tempo, é o da família estendida, parentes que zelam um pelos outros, que se ajudam nos momentos de maior necessidade. Esse tipo de arranjo, lentamente desenvolvido ao longo dos milênios, representa um aspecto inalienável da natureza humana. Daí que a ideia de ser avó (ou avô) aos 90 começa a parecer repugnante, pois as pessoas já não podem participar adequadamente da estrutura familiar. Claro que hoje se fala muito de mais saúde para a quarta idade, mas essa é uma empreitada incerta.

Essas tendências são aceitas com um misto de resignação e entusiasmo, como se não fossem produto de decisões humanas. A postura da Igreja sobre as relações familiares (e sobre o que mesmo constitui uma família) é constantemente atacada, sob a pecha de obscurantismo. Mas, ao lançar luz sobre valores profundamente enraizados na natureza humana, será que não seria a palavra dela a mais relevante hoje?

Eduardo R. Cruz é professor titular do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, tendo graus avançados em Física e Teologia; publicou extensamente sobre o relacionamento entre ciências naturais e fé cristã.
 

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