Comportamento

Abas primárias

Até quando viver?

“Quero pôr fim à minha vida. Está decidido”. Com essas palavras, o cientista David Goodall, aos 104 anos, resolveu cometer o chamado suicídio assistido. “Minha vida tem sido muito difícil no último ano. Estou feliz em acabar com ela”, afirmou. Suas últimas palavras quando a droga, que o levaria a morte, já corria nas veias foram: “Isso está demorando muito tempo”. E, a seguir, faleceu, após seguir rigoroso protocolo, para que se estivesse certo do que estava fazendo. Cada uma das frases de David poderia levar a uma profunda reflexão, que o espaço não permite, mas que incentivo o leitor a fazê-la.

Ultrapassar os 90 anos deixou de ser privilégio de poucos. Assim como também são milhões os que carregam consigo uma doença crônica por décadas, com enorme sofrimento, pois os recursos médicos o sustentam, mas não terminam de vez com as dificuldades da convivência com as dores e limitações. Um enorme dilema ético, quando, procurando melhorar a qualidade de vida, por vezes, acabamos prolongando um sofrimento sem saída. 

Mas olhemos para a questão fundamental do Professor David:  Temos o direito de tirar a própria vida? A vida é nossa para podermos decidir o que bem entendermos em relação a ela? Afinal, nós não a fizemos, mas a recebemos como um dom, uma graça. E assim passamos a viver, cada um de nós. O fato de a termos recebido, torna-nos proprietário ou zelador dela? Se fôssemos proprietários poderíamos fazer, ou deixar de fazer, muitas atitudes que acabam comprometendo a sua existência, apesar da nossa vontade em contrário. Quem de nós gosta de ficar doente? Se assim encontramos alguém, pensaremos que, só por isto, esse individuo não está bem. Tomamos decisões cujos efeitos maléficos ao organismo não gostaríamos de ter. Muitos gostariam de fumar sem o prejuízo do tabaco. Quantos não gostariam de comer doce sem o risco do diabetes. E o churrasco salgado sem que subisse a pressão arterial? E tantos outros exemplos demonstram que não temos total controle sobre nosso corpo – a vida –, mas devemos zelar por ela se quisermos viver bem.

A força de sobrevivência é outra manifestação de que não podemos fazer o que queremos com a vida, mas devemos nos empenhar ao máximo para poder viver. Os exemplos são incontáveis: pessoas que nascem com deficiências muito significativas, fisicamente falando; ou com distúrbios psicológicos; além daqueles que passam por doenças que se aproximam do calvário; e, mesmo assim, lutam para sobreviver. Contam com a colaboração de muitos, que sensibilizados, procuram ajudá-los. O homem deseja viver! 

Não esquecemos daqueles que se encontram numa condição em que a própria percepção da vida parece ter desaparecido. A demência em suas diversas manifestações torna os seres humanos ausentes do mundo, à espera de uma partida. O que há nesse sofrimento para podermos aprender a valorizar mais a vida? Por que nos ocupamos de pessoas que mal nos ouvem, não nos compreendem nem sequer nos agradecem; pelo contrário, às vezes podem ser agressivas? São situações difíceis, sem dúvida, e não se pode atuar com um julgamento draconiano para aqueles que não apresentam condições de suportar o convívio. É preciso refletir. Buscar compreender. 

Seria a morte do Professor David a resposta? Será que a vida está demorando muito tempo? O que estaria muito difícil para o centenário professor no seu último ano? As dores, a solidão, a falta de expectativa, a perda do sentido? Para aonde acreditava que estaria indo após a sua decisão? Pelo que viveu o Professor, profundo conhecedor de Botânica, a vida verde na natureza? Não nos cabe qualquer julgamento, mas não podemos permanecer indiferentes a sua determinação. Por que, então, tantos lutam para viver, ainda que em condições sub-humanas? 

Atrevo-me a dizer que o acolhimento com solidariedade faz toda a diferença quando se vê na morte natural, sem antecipações, um marco para a vida em plenitude. E para tanto, a Igreja apresenta o sacramento da Unção dos Enfermos, em que diante das condições de risco, se procura suavizar o paciente pelo perdão, pela oração e pela preparação para uma nova vida. Assim respondia um idoso ao enfermeiro, que queria saber por que todos os dias visitava sua esposa demenciada, há anos sem se comunicar: “Ela pode não saber mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é.” 

 

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