Jornal o São Paulo

Espiritualidade

A harmonia perdida

Harmonia e equilíbrio são condições muito desejadas por todos nós, e para chegar a isso buscamos uma alimentação mais saudável, fazer exercícios e cultivar uma vida mais regular. Os hábitos contam muito para alcançar a harmonia física e mental. Mas quanto tempo dura esse equilíbrio? É possível estar em harmonia sempre? Como manter o equilíbrio e a harmonia diante do drama existencial da dor e do sofrimento, das doenças ou da morte?

A natureza humana é frágil e limitada na sua condição, mas é preciso considerar também que ela está marcada pelo pecado. Ignorar que a natureza humana foi ferida pelo pecado, e que, em consequência disso, carrega uma inclinação para o mal, dá lugar a muitos erros, que afetam todas as dimensões da vida humana. O pecado rompeu com o equilíbrio e a com a harmonia do homem consigo mesmo, e do homem com a realidade à sua volta, e essa condição não pode ser restabelecida senão pela graça.

Em Adão, o pecado de um se tornou pecado de todos, uma condição solidária que arrasta a todos nós, por isso o medo de não ser amado. Adão escondeu-se, por vergonha do seu pecado, da sua desconfiança do amor e do favorecimento de Deus, e isso se tornou o nosso drama comum. O homem criado bom, à imagem e semelhança do Criador, experimentou, e continua experimentando, o vazio da desconfiança e, por mais que procure, não consegue alcançar aquele equilíbrio e harmonia que tinha na companhia de Deus, enquanto caminhava pelo jardim. O homem, cada pessoa humana, de alguma forma, não se sente amado. 

Depois da queda, o homem não foi abandonado, como um projeto que não deu certo. Deus procurou o homem, escondido em sua vergonha, e teceu vestes para este, mas por conta da sua escolha pessoal, o homem não podia mais conviver com Deus. Não era possível permanecer no paraíso. Porém, Deus anunciou a redenção para o futuro, quando a “serpente”, que é o mal, seria vencida e teria sua cabeça esmagada. Essa promessa de Deus foi chamada de “primeiro” evangelho, isto é, primeiro anúncio da graça que restabelece a harmonia entre Deus e o homem, o anúncio do Messias. 

Se Deus não impediu que o homem pecasse, não foi por incapacidade, mas por outro motivo, explicado por São Leão Magno: “A graça inefável de Cristo deu-nos bens melhores do que aqueles que a inveja do Demônio nos havia subtraído”. Uma resposta que encontra confirmação na Escritura e no ensinamento do apóstolo São Paulo: “mas onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). Essa certeza a Igreja proclama na Páscoa, quando entoa o canto do pregão pascal dizendo, “Ó feliz culpa, que mereceu tão grande Redentor”. 

Assim em Cristo, no mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição, foi dada a graça que restabelece a harmonia e equilíbrio que o homem procura. Somente a partir do restabelecimento da intimidade com Deus é que as dimensões da vida do homem podem alcançar o seu fim último. Cultivar a vida espiritual, na escuta do Espirito, é a condição essencial para o equilíbrio e a harmonia da vida. Somente a comunhão com Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo, permite ao homem experimentar o amor e entender a si mesmo, conviver e respeitar os seus semelhantes e cuidar do mundo à sua volta.
 

Dom Devair Araújo da Fonseca
Bispo Auxiliar sa Arquidiocese na Região Brasilândia
e Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação

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